Nota ao leitor: neste texto, "candidato do PL" é Jair Bolsonaro em 2018 e 2022 e Flávio Bolsonaro em 2026; "candidato do PT" é Fernando Haddad em 2018 e Lula em 2022 e 2026. Comparar candidaturas não é comparar pessoas. "pp" quer dizer ponto percentual. Todas as porcentagens de voto são sobre votos válidos (sem brancos e nulos), salvo quando dito o contrário.
Município por município: o que mudou do 1º turno de 2022 para o de 2026
Lula teve 45,2% dos votos válidos e Flávio Bolsonaro, 47,0%. Comparamos município por município com 2022 e 2018 para mostrar onde a diferença foi construída, onde ficou e onde o padrão do estado não vale.
O que aconteceu
No 1º turno de 4 de outubro de 2026, Flávio Bolsonaro (PL) teve 56.104.503 votos, 47,03% dos válidos. Lula (PT) teve 53.879.538, 45,16%. A diferença foi de 2.224.965 votos, ou 1,87 ponto percentual. Nenhum dos dois passou de 50% dos votos válidos, e os dois disputam o 2º turno em 25 de outubro. Os demais dez candidatos somaram 7,81% (9.316.747 votos); os três maiores foram Augusto Cury (Avante), com 2,89%, Renan Santos (Missão), com 2,24%, e Ronaldo Caiado (PSD), com 2,18%. (Fonte: TSE, votação por candidato e município/zona, arquivo gerado em 21/10/2026.)
Para dar escala, a mesma etapa nas duas eleições anteriores. Em 2018, Jair Bolsonaro (PSL) teve 46,03% dos válidos (49.277.010 votos) e Fernando Haddad (PT), 29,28% (31.342.051): 16,8 pp de diferença. Em 2022, Lula teve 48,43% (57.259.504) e Jair Bolsonaro (PL), 43,20% (51.072.345): 5,2 pp de diferença a favor de Lula. Em 2026, a diferença é de 1,9 pp a favor do candidato do PL.
A conta em votos, de 2022 para 2026, mostra de onde veio a mudança. O candidato do PL tem 5,03 milhões de votos a mais; Lula, 3,38 milhões a menos. Os demais candidatos somam 0,58 milhão a menos, os brancos 0,34 milhão a mais, os nulos 0,19 milhão a mais, e a abstenção 0,70 milhão a mais. O eleitorado cresceu 2,29 milhões (de 156,45 milhões para 158,75 milhões de aptos).
Um dado que costuma passar despercebido: quase toda a variação da votação de Lula vem da fatia nos votos válidos, e quase nada do comparecimento. Decompondo os 3,38 milhões de votos a menos de Lula, o crescimento do eleitorado contribuiu com +0,81 milhão, o comparecimento com −0,10 milhão, a proporção de válidos entre os que compareceram com −0,21 milhão e a fatia de Lula nos válidos com −3,88 milhões. Para o candidato do PL, a mesma conta dá +0,78, −0,09, −0,20 e +4,55 milhões. A abstenção, portanto, não explica a diferença entre os dois anos (mais no achado 3).
No mapa dos estados. Pelos dados do TSE, Lula teve mais votos válidos em 12 unidades da federação: os nove estados do Nordeste, mais Pará, Amazonas e Amapá. O candidato do PL liderou em 15: 14 estados e o Distrito Federal. Em 2022, Lula liderou em 14 unidades e Jair Bolsonaro em 13. Minas Gerais e Tocantins passaram de Lula para o candidato do PL. O Congresso em Foco chegou à mesma contagem de 12 e 15 (veja a seção 5).
O resultado mais apertado do país foi no Amapá: Lula teve 212.503 votos e o candidato do PL, 212.278. Foram 225 votos de diferença, em 464.858 votos válidos. Em Minas Gerais, a margem foi de 4,9 pp; no Amazonas, de 3,2 pp; no Pará, de 5,4 pp; em Tocantins, de 7,0 pp.
No mapa dos municípios. Lula teve mais votos em 2.665 dos 5.570 municípios, o candidato do PL em 2.905. Em 2022, a divisão do 1º turno foi de 3.379 para Lula e 2.191 para Jair Bolsonaro. Entre os 41 municípios com mais de 500 mil habitantes (Censo 2022), Lula liderou em 15 e o candidato do PL em 26.
Brancos, nulos e abstenção
Os números. No 1º turno de 2026, 33.469.244 eleitores não compareceram: 21,08% dos 158.745.502 aptos. É a maior abstenção de um 1º turno presidencial desde 1998 (21,49%). Nas eleições intermediárias da série que organizamos, foi de 17,74% em 2002, 16,75% em 2006, 18,12% em 2010, 19,39% em 2014, 20,33% em 2018 e 20,95% em 2022. A diferença para 2022 é de 0,13 pp, ou cerca de 700 mil eleitores a mais.
Entre quem compareceu (125.275.835 pessoas), 1,84% votou em branco e 2,93% anulou o voto, 4,77% no total. Em 2022, eram 1,59% e 2,82%, 4,41% no total; em 2018, 2,65% e 6,14%, 8,79%. A queda de 2018 para 2022 chama a atenção: os nulos passaram de 7,2 milhões para 3,5 milhões de votos. Não encontramos uma fonte que explique isso com dados, e por isso não propomos explicação. Somando abstenção, brancos e nulos, 24,85% dos aptos não escolheram nenhum candidato em 2026, contra 24,43% em 2022 e 27,33% em 2018.
Onde são maiores. A abstenção em 2026 foi a maior em Mato Grosso do Sul (23,87%), no Rio de Janeiro (23,32%), em Minas Gerais (22,81%), em São Paulo (22,54%) e em Mato Grosso (22,20%). Foi a menor no Ceará (15,52%), em Roraima (17,12%), no Piauí (17,15%), em Sergipe (17,30%) e na Paraíba (17,38%). No exterior, onde 916.534 eleitores estavam aptos, a abstenção foi de 62,66%.
Entre as capitais, a do Rio de Janeiro teve a maior abstenção (26,12%) e Fortaleza a menor (13,02%). Entre os municípios, os maiores índices estão em Minas Gerais: Rio Vermelho, com 40,09%, é o primeiro da lista, e as 5 primeiras posições do ranking são mineiras. Por porte, a abstenção é parecida em todas as faixas, de 20,3% (municípios de até 5 mil habitantes) a 21,3% (de 20 a 50 mil).
Em relação a 2022, a abstenção caiu em 13 unidades da federação e subiu em 14 (sem contar o exterior, que subiu de 56,19% para 62,66%). Caiu mais em Rondônia (−2,94 pp), Maranhão (−2,47 pp) e Pará (−2,12 pp). Subiu mais em Mato Grosso do Sul (+1,78 pp), Rio Grande do Sul (+1,57 pp) e Distrito Federal (+1,36 pp).
Os votos brancos e nulos juntos (em % de quem compareceu) foram mais frequentes na Paraíba (6,34%), em Alagoas (6,17%), em São Paulo (5,86%), na Bahia (5,45%), em Pernambuco (5,25%) e em Minas Gerais (5,23%), e menos frequentes em Roraima (2,17%), Rondônia (2,32%) e Amapá (2,46%). Os maiores aumentos em relação a 2022 foram no Pará (de 2,28% para 4,01%), em Alagoas (de 4,53% para 6,17%) e no Ceará (de 3,54% para 4,95%).
O que dizem outras fontes. Cada leitura abaixo é de quem a faz, e não nossa.
- Fadiga com a polarização. O cientista político Hely Ferreira, ouvido pelo Diário de Pernambuco, atribui parte da abstenção ao cansaço com a polarização e à falta de uma "terceira via" competitiva, que teria levado eleitores insatisfeitos a ficar em casa (Diário de Pernambuco). Em 2026 houve três candidatos entre 2,2% e 2,9% dos válidos; não testamos a hipótese.
- Perfil de quem falta. Para Arthur Wittenberg, do Ibmec-DF, a direita tende a faltar menos, mas é mais difícil de mobilizar, enquanto a esquerda, em média de menor renda e escolaridade, falta mais, mas responde mais à mobilização. Leandro Gabiati, da consultoria Dominium, observa que a polarização pode mobilizar quem acha que poucos votos decidem a disputa. O mesmo texto trata de fatores que o próprio veículo apresenta, sem atribuir a especialistas, como envelhecimento do eleitorado, mudança de domicílio sem transferência do título e o valor baixo da multa (Gazeta do Povo). O texto projetava, antes da eleição, abstenção acima de 22% no 1º turno (o dado final é 21,08%) e, segundo Gabiati, 25% somando brancos e nulos (calculamos 24,85% dos aptos).
- Desinteresse e alienação. O estudo "Alienação Eleitoral no Brasil Democrático", do Instituto Votorantim, divulgado em 2022 pelo Estadão/Broadcast, soma abstenção e votos brancos e nulos e associa o aumento a escândalos de corrupção e à percepção de que o voto não tem valor (Rafael Gioielli, do instituto), e à frustração com a democracia e à fragmentação partidária (Nara Pavão, da UFPE). O estudo também cita que eleitores com ensino superior votam mais e que jovens até 24 anos se abstêm mais (O Povo/Agência Estado). Os números que o estudo reporta para a "alienação" (18% em 2006 e 25% em 2018) não coincidem com a soma que calculamos para o mesmo conceito sobre os aptos (23,76% e 27,33%). Não conhecemos a base de cálculo deles (palpite: outra definição de denominador), e por isso não usamos os números do estudo.
- Duas interpretações acadêmicas. Marques e Souza (UFMG), em trabalho apresentado em 2020 no encontro da ANPOCS, apresentam duas leituras possíveis para a "alienação eleitoral": protesto de eleitores insatisfeitos com os políticos, ou mudança de valores e escolaridade, que levaria sobretudo jovens a preferir outras formas de participação. O trabalho não testa diretamente essas hipóteses (Biblioteca Digital do TSE).
- Fatores institucionais. Timothy Power e J. Timmons Roberts, em artigo de 1997 na revista Estudos Eleitorais, estudaram eleições legislativas de 1945 a 1990 e argumentam que, além do protesto e do nível socioeconômico, o desenho institucional (cédula complexa, muitos candidatos e partidos) ajuda a explicar votos inválidos (Biblioteca Digital do TSE). O estudo é de outra época e de eleições legislativas; serve de referência conceitual, não de explicação de 2026.
- Coluna de opinião. O colunista Cleyton Monte, em coluna publicada em 15/10/2026 no O Povo, afirma que a abstenção é maior entre pessoas de menor renda e escolaridade e que isso representa um desafio para Lula. A coluna não apresenta números nem fontes para essa afirmação (O Povo).
O que nossos dados dizem. Com os dados do TSE não dá para saber renda ou escolaridade de quem se absteve. O que dá para medir é o município. Comparando municípios do mesmo estado, onde a abstenção subiu mais do que a média do estado, a fatia de Lula caiu menos (correlação de 0,14), e a do candidato do PL subiu menos (−0,13). A relação é fraca e tem sinal contrário ao da correlação nacional (−0,24), um caso de inversão por mistura de estados, que explicamos no achado 3.
Estado por estado e cidade por cidade
O panorama. De 2022 para 2026, a fatia de Lula nos votos válidos caiu em 25 dos 27 estados. As exceções foram o Distrito Federal (+1,26 pp) e o Amapá (+0,04 pp, praticamente estável). A do candidato do PL subiu em 26 estados; a exceção foi o Distrito Federal (−0,34 pp). No exterior, a fatia de Lula subiu 0,39 pp e a do candidato do PL, 1,88 pp.
Os maiores recuos da fatia de Lula foram em Goiás (−8,46 pp), Tocantins (−6,97 pp), Rio Grande do Sul (−6,56 pp), Mato Grosso (−5,21 pp), Minas Gerais (−4,96 pp), Maranhão (−4,85 pp), Paraná (−4,79 pp), Santa Catarina (−4,49 pp) e Mato Grosso do Sul (−4,36 pp). As maiores altas do candidato do PL foram no Rio Grande do Sul (+6,75 pp), em Tocantins (+6,44 pp), no Ceará (+5,90 pp), em Mato Grosso do Sul (+5,90 pp) e em Mato Grosso (+5,30 pp). Em Goiás, a queda de Lula não veio acompanhada de alta do candidato do PL (+1,45 pp); o motivo está no achado 6.
Os votos contam outra história, porque os estados têm tamanhos muito diferentes. Em São Paulo, Lula tem 984.619 votos a menos do que em 2022 e o candidato do PL, 682.034 a mais. Em Minas Gerais, são 613.635 a menos para Lula e 538.284 a mais para o candidato do PL; no Rio Grande do Sul, 511.913 a menos e 328.760 a mais. Os maiores ganhos de votos do candidato do PL não são todos em estados em que ele lidera: na Bahia, onde Lula teve 66,17% dos válidos, o candidato do PL tem 394.986 votos a mais do que em 2022; no Ceará, 379.023 a mais.
O Nordeste. A fatia de Lula caiu nos nove estados e a do candidato do PL subiu nos nove, mas Lula manteve a liderança em todos, de 54,73% em Alagoas a 70,99% no Piauí. A queda foi menor em Sergipe (−1,08 pp) e Alagoas (−1,77 pp) e maior no Maranhão (−4,85 pp) e na Bahia (−3,55 pp). A abstenção, por sua vez, caiu em sete dos nove estados da região (as exceções foram Paraíba e Rio Grande do Norte).
Estados que trocaram de lado. Minas Gerais passou de uma vantagem de Lula de 4,7 pp em 2022 para uma do candidato do PL de 4,9 pp em 2026. Tocantins passou de 6,4 pp a favor de Lula para 7,0 pp a favor do candidato do PL. Essas duas trocas respondem pela diferença de 14 para 12 unidades da federação de Lula.
Mapas municipais. Em 5.468 dos 5.570 municípios, a fatia de Lula caiu; em 102 (23 deles no Pará, 18 na Bahia e 9 em Sergipe), subiu. A fatia do candidato do PL subiu em 5.479 e caiu ou ficou estável em 91. As maiores mudanças aparecem em municípios pequenos. A maior queda da fatia de Lula foi em Guarani de Goiás (GO, 4.085 habitantes), com −24,5 pp (o candidato do PL, −1,4 pp). Em seguida vêm Herveiras (RS, 2.565 habitantes), com −24,1 pp para Lula e +21,6 pp para o candidato do PL, e Passa Sete (RS, 3.983 habitantes), com −22,4 pp e +22,1 pp. Todos os valores são de municípios com menos de 5 mil habitantes, em que poucas dezenas de votos movem muito o percentual.
As capitais. A fatia de Lula subiu em 11 das 27 capitais e caiu em 16. Os maiores recuos: Goiânia (−4,86 pp), Palmas (−4,61 pp), Porto Velho (−2,47 pp), Cuiabá (−2,41 pp) e Campo Grande (−2,19 pp). As maiores altas: Macapá (+2,41 pp), Belém (+2,26 pp), Aracaju (+1,50 pp), Brasília (+1,26 pp) e Recife (+1,25 pp). A fatia do candidato do PL caiu em quatro capitais: Goiânia (−1,41 pp), Recife (−0,85 pp), Brasília (−0,34 pp) e Rio Branco (−0,27 pp). Em São Paulo, a fatia de Lula caiu 0,96 pp (de 47,54% para 46,58%) e a do candidato do PL subiu 4,14 pp. Em Salvador, Lula ficou com 65,26% (−1,73 pp).
Em termos de votos, a cidade de São Paulo concentra a maior perda de Lula (224.163 votos a menos que em 2022), seguida de Salvador (78.370), Belo Horizonte (45.965), Rio de Janeiro (43.968) e Goiânia (39.626).
Municípios fora do padrão do estado. Para localizar municípios que se afastam do que aconteceu no resto do estado, calculamos a variação da fatia de Lula em cada município menos a mediana (ponderada) do estado e listamos os mais distantes. Entre os que pioraram mais do que o estado: Senador José Porfírio (PA, −16,5 pp), Humaitá (AM, −13,1), Eirunepé (AM, −13,1), Jutaí (AM, −12,8), Colina (SP, −13,2), Anapu (PA), Rurópolis (PA), Tailândia (PA), Balsas (MA, −13,3) e Papanduva (SC, −12,6). Entre os que se saíram melhor do que o estado: Sobral (CE, +4,2 pp), Limoeiro do Ajuru (PA, +4,2), Salvaterra (PA, +3,2), Anajás (PA, +2,7), Quinjingue (BA, +1,6), Belém (PA, +2,3) e Baixa Grande (BA, +1,5). Não sabemos a causa em nenhum desses casos. Antes de qualquer leitura, vale conferir se há candidatura local, mudança de zona ou outro fator que o dado do TSE não mostra. O caso de Sobral, que tem uma explicação mensurável, está no achado 6.
Por tamanho do município. Quanto menor o município, maior a variação. Nos municípios de até 5 mil habitantes (1.324), a fatia de Lula foi de 54,55% para 47,38% (−7,17 pp) e a do candidato do PL de 39,28% para 46,06% (+6,77 pp). Nos 41 municípios com mais de 500 mil habitantes, Lula foi de 45,03% para 43,98% (−1,06 pp) e o candidato do PL de 44,01% para 46,41% (+2,40 pp).
Seis achados fora da curva
Cada achado traz o que testamos para saber se é artefato dos dados.
Achado 1. A mudança foi quase nacional, mas dois terços dela é local. A fatia de Lula caiu em 5.468 dos 5.570 municípios (98,2%) e a do candidato do PL subiu em 5.479 (98,4%). Em 5.413 municípios os dois movimentos ocorreram ao mesmo tempo. A média da variação da fatia de Lula nos municípios, ponderada pelos votos válidos de 2026, é de −3,46 pp, e o desvio-padrão ponderado, de 3,04 pp. Só 34,7% da variação entre municípios é explicada pelo estado em que eles ficam; o resto, 65,3%, é variação entre municípios do mesmo estado. Teste: repetindo só com os 2.088 municípios com mais de 10 mil votos válidos, a queda vale para 2.024 deles (97%) e a parte explicada pelo estado fica em 33,5%. O padrão não vem de municípios minúsculos, em que poucas dezenas de votos mudam o percentual.
Achado 2. Quanto menor a cidade, maior a mudança, e isso vale dentro de cada estado. Na regressão da variação da fatia de Lula sobre o logaritmo (base 10) da população, cada multiplicação da população por 10 vem com um recuo menor, de cerca de 1,9 pp, já descontando o estado. Testes de artefato: (a) com efeito fixo de estado, o coeficiente é de 1,92 (sem controle, 2,09); (b) controlando também pela fatia de Lula em 2022, para separar de uma regressão à média, é de 1,82; (c) só com municípios com mais de 10 mil votos válidos, 1,93; (d) sem as cinco maiores unidades da federação (SP, MG, RJ, BA, RS), 2,34; (e) numa divisão aleatória do conjunto em duas metades, 1,99 e 2,22; (f) em cada um dos 26 estados com ao menos 10 municípios, o sinal é o mesmo (positivo, de 0,26 no Piauí a 3,04 em Santa Catarina). Isto é correlação: o dado não diz por que cidades menores mudaram mais.
Achado 3. A abstenção quase não explica a mudança de voto, e a correlação nacional engana. Já mostramos que, na decomposição dos votos, a abstenção pesa pouco. Em nível municipal, a variação da abstenção tem correlação de −0,24 com a variação da fatia de Lula (mais abstenção, menos Lula). Mas dentro de cada estado a correlação é de +0,14, sinal oposto. É uma inversão por mistura de estados. Entre as 27 unidades da federação, a correlação entre a variação da abstenção e a fatia de Lula em 2026 é de −0,30: nos estados em que Lula tem fatia maior, a abstenção caiu mais ou subiu menos. Isso (palpite) cria uma correlação negativa agregada que não existe dentro de cada estado. Teste: com os 4.968 municípios cujo eleitorado variou menos de 10% entre as duas eleições (descartando 602 com variação maior, que poderiam ser efeito de recadastramento), a correlação interna ao estado é de +0,18, no mesmo sentido. Separando os municípios em quatro grupos pela variação da abstenção em relação à média do próprio estado, a fatia de Lula ficou 0,98 pp abaixo da média do estado no grupo em que a abstenção mais caiu e 0,57 pp acima no grupo em que mais subiu; para o candidato do PL, os desvios foram de +0,75 e −0,37 pp. Os dados não dizem quem se absteve nem por quê. Os desvios são pequenos perto da variação total de 3 a 5 pp.
Achado 4. 714 municípios trocaram de vencedor, todos no mesmo sentido. De Lula, em 2022, para o candidato do PL, em 2026: 714. Nenhum fez o caminho inverso. Eles somam 8,19 milhões de votos válidos em 2026 e se concentram em Minas Gerais (178), Rio Grande do Sul (134), Paraná (91), São Paulo (90), Goiás (69), Tocantins (37) e Santa Catarina (27). A mediana da margem em 2022 desses municípios era de 7,0 pp, contra 33,1 pp nos municípios que não trocaram: foram trocas em disputas já apertadas. Teste: aplicamos às margens de 2022 um deslocamento uniforme, igual para todos, de 7,4 pp (o deslocamento médio ponderado entre os dois anos). Isso prevê 394 trocas, das quais 385 coincidem com trocas reais. O deslocamento uniforme acerta quase todas as trocas que prevê, mas deixa de fora cerca de 330 das 714: nesses lugares o deslocamento foi maior do que o médio. Restringindo a municípios com margem de 2022 de pelo menos 1 pp e ao menos 5 mil votos, restam 3.405 municípios, dos quais 292 trocaram. Em 2026, 426 municípios terminaram com margem de até 5 pp (83 com até 1 pp).
Achado 5. Dentro de uma cidade, os bairros mudam quase tanto quanto cidades dentro de um estado. Casamos 6.082 zonas eleitorais entre 2022 e 2026 e ficamos com as 3.988 cujo eleitorado ficou entre 0,8 e 1,25 vez o de 2022 e têm ao menos 5 mil votos válidos em 2026. Nos 73 municípios com 3 ou mais dessas zonas, a diferença mediana entre a zona que mais variou e a que menos variou é de 2,24 pp (90% dos municípios ficam abaixo de 4,85 pp). O desvio-padrão da variação entre zonas do mesmo município é de 1,48 pp; entre municípios do mesmo estado (com mais de 10 mil votos válidos), de 2,25 pp. Em São Paulo, a variação da fatia de Lula por zona vai de −5,0 a +4,9 pp; em Brasília, de −1,3 a +5,7; no Rio de Janeiro, de −3,2 a +5,0; em Goiânia, todas as zonas comparáveis caíram, de −7,3 a −1,7. Teste: excluímos zonas cujo eleitorado ficou fora dessa faixa, para que a variação não seja efeito de redesenho de zonas. Os números por zona estão em zonas_estaveis_2022_2026.csv.
Achado 6. Os terceiros candidatos explicam o maior recuo, e um candidato de 2022 explica um "ganho" de Lula. Os candidatos que não são Lula nem o do PL somaram 7,81% em 2026 e 8,37% em 2022: pouco mudou no total, mas a distribuição não é uniforme. Ronaldo Caiado teve 2,18% no país e 12,33% em Goiás (1,85% fora de Goiás); em Goiás, os candidatos fora da dupla somaram 15,3% dos válidos (8,3% em 2022). É nesse estado que Lula tem o maior recuo (−8,46 pp), enquanto o candidato do PL subiu só 1,45 pp. Augusto Cury (2,89% no país) teve 4,10% no Amapá, 3,59% em São Paulo e 3,57% no Amazonas; Renan Santos (2,24%), 3,23% em São Paulo, 2,95% em Santa Catarina e 2,69% no Paraná.
O outro lado: em Sobral (CE, 203 mil habitantes), a fatia de Lula subiu 4,2 pp, o município de maior desvio positivo em relação ao Ceará. Em 2022, Ciro Gomes teve 18,46% dos válidos em Sobral (6,80% no Ceará e 3,04% no país) e não concorreu em 2026. Em Fortaleza, ele teve 8,66% em 2022; a fatia de Lula ali subiu 0,28 pp e a do candidato do PL 4,17 pp. Teste: a hipótese de que se trata de efeito de um candidato local de 2022 é compatível com os números (palpite: os votos de Ciro em 2022 foram redistribuídos entre os dois), mas não podemos medir para quem foram. Quando se compara apenas a dupla, o dado de 2022 e o de 2026 não são equivalentes nos estados em que há terceiro candidato forte em um dos anos.
O que dizem veículos e institutos
Separamos o que é dado (nosso, com fonte), o que é interpretação alheia (com link) e o que é leitura nossa.
Dado público de outra fonte conferido com os nossos números. O Congresso em Foco registra que Flávio Bolsonaro venceu em 15 unidades da federação (14 estados e o Distrito Federal) e Lula em 12 (os nove estados do Nordeste mais Pará, Amazonas e Amapá). Nossas contas, a partir do arquivo do TSE, dão a mesma lista (Congresso em Foco). Observação: o título da matéria e o fechamento têm contagens diferentes (14 a 13 no fechamento), mas a lista de estados bate com 15 a 12.
Interpretação do veículo. O Congresso em Foco descreve o resultado como um "Brasil dividido" também geograficamente, diz que o Nordeste é o único bloco regional conquistado inteiro por Lula, que o mapa do candidato do PL foi especialmente homogêneo no Sul, Sudeste e Centro-Oeste e que o Norte é a região mais dividida. Esses adjetivos são do veículo. Nossos dados mostram o seguinte sobre o Norte: Lula teve mais votos em 3 de 7 estados (Pará, Amazonas e Amapá), e as margens estão entre 0,05 e 5,4 pp nos três.
Interpretações sobre a abstenção. Estão na seção 2, com autoria, link e a indicação do que é opinião, estudo ou análise do próprio veículo. A nossa leitura é só a que os dados sustentam: a abstenção subiu 0,13 pp, ficou perto do patamar de 2018 e 2022, e não explica a mudança dos votos entre os dois candidatos.
Pesquisas de intenção de voto para o 2º turno (só dados, sem leitura nossa). Reproduzimos apenas os dados técnicos de duas pesquisas registradas no TSE, tal como divulgados. Pesquisa não é previsão nem resultado, e não comentamos os números.
| Instituto (contratante) | Campo | Entrevistas | Margem (95%) | Registro TSE | Flávio Bolsonaro | Lula |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Datafolha (Folha de S.Paulo) | 13 a 15/10/2026 | 2.520 | 2 pp | BR-00466/2026 | 47% (51% dos válidos) | 45% (49% dos válidos) |
| Quaest (Rede Globo) | 17 a 20/10/2026 | 2.154 | 2 pp | BR-08535/2026 | 45% | 44% |
Nas duas, os percentuais são sobre o total de entrevistados, e o restante é de brancos, nulos e indecisos (Datafolha: 6% de brancos e nulos e 2% que não souberam; Quaest: 9% de brancos, nulos ou que não vão votar e 2% de indecisos). A Quaest não informou votos válidos. Fontes: SBT News e Correio da Manhã para o Datafolha; Gazeta do Povo para a Quaest. Os números originais estão nos sites dos institutos e no sistema de registro de pesquisas do TSE; confira lá antes de citar.
Fontes e método
Fontes. Todos os números de votação vêm de arquivos de dados abertos do TSE: "votação por candidato por município e zona" (presidente, 2018, 2022 e 2026, 1º turno) e "detalhe da votação por município e zona" (aptos, comparecimento, abstenções, brancos, nulos, válidos; 1998 a 2026). Os arquivos de 2026 e 2022 foram gerados pelo TSE em 21/10/2026; o de 2018, em 13/11/2024. As populações municipais são do Censo 2022 (IBGE, SIDRA, tabela 4714). As malhas dos mapas são as malhas municipais e estaduais do IBGE. A tabela de equivalência de códigos entre TSE e IBGE está em dados_brutos/municipios_tse_ibge.csv.
Definições. Percentuais de voto são sobre votos válidos (soma dos votos nominais). Abstenção é o percentual de aptos que não compareceram. Brancos e nulos são percentuais dos que compareceram, quando dito, e dos aptos, quando dito. As variações são sempre 2026 menos 2022, em pontos percentuais. Votos do exterior entram nos totais nacionais e foram tratados como "estado" (ZZ) nas tabelas, e ficam fora dos mapas e dos gráficos por município.
Conferências. A soma dos candidatos bate com o total de válidos em todos os municípios; a abstenção nacional de 21,08% e o resultado do Amapá (225 votos) foram conferidos com a imprensa; as porcentagens por unidade da federação foram conferidas com três veículos. Os totais de 2002, 2006 e 2018 têm pequenas diferenças de identidade entre os campos do TSE (de 746 a 18.876 votos em cerca de 100 milhões); não afetam nenhum número arredondado aqui.
Cálculos. A decomposição da variação de votos usa a decomposição logarítmica (LMDI) em quatro fatores: eleitorado, comparecimento, válidos sobre comparecimento e fatia do candidato. As regressões usam mínimos quadrados ponderados pelos votos válidos de 2026, com efeito fixo de estado. A parte da variação "explicada pelo estado" é a redução da soma ponderada de quadrados ao se usar a média do estado em vez da média nacional. O deslocamento uniforme do achado 4 soma o mesmo número de pontos às margens de 2022 de todos os municípios. Os "fora do padrão" usam o resíduo em relação à mediana ponderada do estado, padronizado pelo desvio absoluto mediano.
Reprodução. A pasta scripts/ refaz tudo a partir de dados_brutos/: 01_tabelas.py (tabelas por município e estado), 02_insights.py (achados e testes), 03_complementos.py (rankings), 04_graficos.py (SVG, CSV) e 05_png.py (PNG 1080×1080).
Limitações
- Comparar candidaturas não é comparar eleitores. O candidato do PL e o do PT mudaram de pessoa entre 2018 e 2022 (PT) e entre 2022 e 2026 (PL). O dado agregado não permite dizer quem votou em quem.
- Sem pesquisa individual. O TSE publica totais por zona eleitoral. Não há como saber de quem foi o voto de cada eleitor, nem renda, escolaridade ou idade de quem se absteve. Qualquer afirmação sobre "perfil" é de outras fontes e está atribuída.
- Correlação não é causa. Os achados 2 a 5 descrevem padrões; não dizem por que ocorreram.
- Zonas eleitorais mudam. As zonas comparáveis são só as cujo eleitorado ficou entre 0,8 e 1,25 vez o de 2022 e que têm ao menos 5 mil votos válidos em 2026; é uma amostra, não o conjunto.
- Terceiros candidatos mudam entre as eleições. A diferença na fatia de Lula ou do candidato do PL carrega a mudança do elenco de candidatos (Goiás em 2026; Ceará em 2022).
- Pequenas diferenças de totais do TSE. Em 2002, 2006 e 2018, a soma de brancos, nulos e válidos não bate exatamente com o comparecimento (diferença máxima de 18.876 votos).
- Dados ainda mudam. O TSE atualiza os arquivos ao fim de cada turno. Este rascunho usa os arquivos gerados em 21/10/2026 e precisa ser revisto com a apuração de 25/10/2026.
- Não fazemos previsão. Nada aqui diz o que vai acontecer no 2º turno.
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