Fábrica de papel parada ameaça cidade canadense afetada por tarifas dos EUA
Unidade da RYAM em Témiscaming está fechada desde outubro; moradores tentam recomprar a planta
A fábrica de papel da RYAM em Témiscaming, no Quebec, está paralisada desde o início de outubro, e a medida atinge 360 funcionários. A unidade é o principal empregador da cidade, que foi construída em torno dela há mais de um século.
A maior parte dos trabalhadores está sem função e recebe parte do salário por meio do programa de alívio tarifário do governo canadense. Segundo as reportagens, o valor dos imóveis caiu rapidamente e há placas de venda espalhadas pelas casas da cidade. Moradores temem que profissionais de serviços essenciais, como médicos e funcionários de supermercados, também deixem Témiscaming.
A RYAM, empresa americana dona da fábrica desde 2017, decidiu manter a unidade parada por tempo indeterminado, por razões econômicas. Em e-mail enviado à BBC, a empresa afirmou que não comentaria a possibilidade de venda da planta nem a existência de eventuais compradores.
A moradora Nadine Suley diz que a fábrica representa mais do que um emprego: “É a nossa casa”. Ela afirma que as tarifas americanas parecem “um ataque pessoal”. Ronnie Raymond, que vem de uma família de operários, prevê que a cidade se tornaria uma cidade fantasma caso a unidade feche.
No conjunto, a economia canadense resistiu à guerra comercial com os Estados Unidos, seu maior cliente. A taxa de desemprego nacional ficou em torno de 6,5% desde a implantação das tarifas do presidente Donald Trump. Setores como aço, alumínio, automóveis e madeira, celulose e papel sofrem mais, com tarifas americanas de até 50%.
A crise pode atingir também serrarias e empresas de transporte rodoviário da região. Um empreiteiro local informou à BBC que demitiu 13 funcionários.
Em 1973, o então proprietário americano da fábrica ameaçou fechá-la. Trabalhadores e gestores locais se uniram para comprá-la e criaram a Tembec, companhia internacional de capital quebequense com unidades na América do Norte e na França. Agora, uma coalizão de moradores busca recomprar a unidade da RYAM. O líder sindical Stéphane Lefebvre afirma: “Esperamos que o raio caia duas vezes no mesmo lugar”. Segundo ele, a iniciativa depende de ajuda do primeiro-ministro Mark Carney e do governo de Quebec, por meio de alívio tarifário ou apoio financeiro.
O prefeito Alain Gauthier não responsabiliza a RYAM pela paralisação. Ele classifica as tarifas americanas como “uma bomba” contra a produção industrial canadense. Gauthier quer que Ottawa imponha tarifas sobre o papelão importado dos Estados Unidos, que hoje entra no país sem cobrança.
Em outubro, a ministra da Indústria, Mélanie Joly, ameaçou aplicar sanções financeiras à Stelco, siderúrgica de Hamilton, ou forçar a venda de seus ativos caso a empresa levasse adiante a demissão de cerca de 500 funcionários. A Stelco pertence à americana Cleveland-Cliffs, que se comprometeu a manter os empregos no Canadá ao comprá-la, em 2024.
Na semana anterior, Mark Carney e o premiê de Ontário, Doug Ford, anunciaram pacote de investimentos de quase C$ 9 bilhões para os setores de aço e automóveis. Os recursos devem ajudar na modernização das indústrias, no fortalecimento da demanda interna e na abertura de novos mercados no exterior.
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