Rei Mohammed VI nomeia primeira mulher para chefiar governo do Marrocos
Escolha de Fatima Zahra El Mansouri, que foi ministra e prefeita de Marrakech, provoca reações conservadoras e debates sobre direitos das mulheres
O rei Mohammed VI nomeou Fatima Zahra El Mansouri como primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra do Marrocos, segundo a BBC. A nomeação ocorreu após a eleição parlamentar de setembro, vencida pelo partido Autenticidade e Modernidade (PAM), que anunciou coalizão com outras três legendas. Juntas, elas somam 207 das 395 cadeiras do Parlamento.
Em publicação no Facebook feita no início deste mês, Mustafa Ramid, ex-ministro da Justiça em um governo liderado por islamistas, citou um provérbio islâmico segundo o qual um povo que confia seus assuntos a uma mulher nunca prospera. Ele questionou se uma mulher deveria ocupar o mais alto cargo político do país. Ramid afirmou que o Marrocos, de maioria muçulmana, encontrou equilíbrio entre igualdade e responsabilidades do Estado, já que o cargo de rei segue reservado a homens.
O Marrocos é uma monarquia constitucional, mas o poder executivo permanece com o monarca, de 63 anos. El Mansouri tem mais de duas décadas de vida pública: foi prefeita de Marrakech, ocupou cargos no governo e exerceu mandato parlamentar. Nos últimos cinco anos, foi ministra de planejamento do território nacional, urbanismo, habitação e política de cidades no governo do então primeiro-ministro Aziz Akhannouch.
Ao comentar a nomeação, El Mansouri afirmou: "Ser a primeira chefe de governo não é apenas motivo de orgulho para mim, mas para todas as mulheres do reino". Segundo a reportagem, ela não informou se pretende levar adiante as reformas do código de família. Também não fez declarações públicas de destaque sobre direitos das mulheres em sua carreira.
Pela legislação do país, críticas à monarquia podem gerar processo. O código penal criminaliza certas ofensas contra o rei, a família real e a instituição monárquica. Nas redes, a nomeação virou tema de sátira, com um vídeo de duas mulheres puxando o cabelo uma da outra compartilhado com legendas que sugeriam como seriam os embates parlamentares de El Mansouri.
Os debates sobre igualdade de gênero concentram-se no direito de família, que trata de herança, casamento e divórcio. Pelas regras atuais, a filha costuma receber metade da parte do filho em situações comparáveis. O Alto Conselho dos Ulemás rejeitou a herança igualitária e propostas para abolir o taasib, regra que pode obrigar órfãs sem irmãos a dividir a herança com parentes do sexo masculino. A poligamia é permitida sob certas condições. As reformas do código de família, a Moudawana, foram anunciadas em 2024, mas ainda não se tornaram lei.
Dados do Alto Comissariado para o Planejamento, órgão oficial de estatísticas, mostram que, em 2025, apenas 55% das meninas de 15 a 17 anos frequentavam a escola em áreas rurais. Nas áreas urbanas, o índice era de 100%. Já a eleição de setembro teve participação de 38% dos eleitores inscritos, segundo dados oficiais, a menor em duas décadas.
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