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Economia · Minerais críticos

Terras raras: o que são, para que servem e onde o Brasil entra nessa disputa

São 17 elementos químicos que fazem o ímã do carro elétrico, da turbina eólica e do celular. A China refina 91% e fabrica 94% dos ímãs. O Brasil tem a 2ª maior reserva do mundo e produz 0,5%. Em 10 de novembro vence a trégua que suspendeu parte dos controles chineses.

Por Dado Bruto · 3 nov. 2026 · 16 min de leitura Tabela periódicaO BrasilO que pouca gente contaFontes e método
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Como funciona

17elementos químicos formam o grupo das terras raras
94%dos ímãs de terras raras do mundo saem da China (2024)
2ºlugar do Brasil em reservas: 11 milhões de toneladas, cerca de 15% do mundo
0,5%da produção mundial de 2025 saiu do Brasil: 2 mil de 390 mil toneladas

Em 1 minuto

  1. Terras raras são metais, não terra, e não são raras: o cério é quase tão comum na crosta quanto o cobre. Difícil é achá-las concentradas e separar uma da outra.
  2. Elas fazem o ímã mais forte do mundo, o de neodímio, que move carros elétricos, turbinas eólicas, celulares, robôs e mísseis.
  3. A China domina tudo: 69% da mineração, 91% do refino e 94% dos ímãs. Desde 2025 usa isso como arma comercial, exigindo licença para exportar.
  4. Em 10 de novembro de 2026 vence a suspensão de parte desses controles. Se voltarem, o preço fora da China, que já é de 10 a 16 vezes o de dentro para alguns elementos, pode subir mais.
  5. O Brasil tem a 2ª maior reserva e um tipo raro de minério, a argila iônica, rica justamente nas terras raras mais caras. Mas produz pouco, ainda manda o minério para a China e não separa nem fabrica ímãs em escala comercial.
  6. Em 2025, o Brasil exportou US$ 14,9 milhões em concentrado de terras raras e importou US$ 30,6 milhões em óxidos e ímãs: vendeu bruto e comprou pronto pelo dobro.

O que a China decide até 10 de novembro

Em outubro de 2025, no meio da guerra comercial com os Estados Unidos, a China anunciou que passaria a controlar a exportação de mais cinco terras raras, de máquinas e tecnologias para processá-las e, pela primeira vez, de produtos fabricados fora do país que levassem pelo menos 0,1% de terra rara chinesa no valor. Um ímã feito no Japão com óxido chinês, por exemplo, passaria a precisar de licença de Pequim para ser vendido.

Três semanas depois, Donald Trump e Xi Jinping fecharam uma trégua de um ano. A China suspendeu as medidas de outubro até 10 de novembro de 2026; os EUA cortaram tarifas e suspenderam sanções. As medidas de abril de 2025, que exigem licença para sete terras raras médias e pesadas, nunca foram suspensas e continuam valendo.

Em setembro, os dois governos disseram que vão estender a trégua até 10 de janeiro de 2027. Mas a nota chinesa não cita terras raras, e até 2 de novembro o Ministério do Comércio da China não tinha publicado nenhum anúncio mudando a data de 10 de novembro. Em 2025, os textos chineses saíram poucos dias antes dos prazos.

  1. dez/2023A China proíbe exportar a tecnologia de extração e separação de terras raras e de fabricação de ímãs.
  2. 4/abr/2025Passa a exigir licença, caso a caso, para exportar 7 terras raras médias e pesadas (samário, gadolínio, térbio, disprósio, lutécio, escândio e ítrio) e os ímãs que as contêm. Essa regra nunca foi suspensa.
  3. mai/2025Faltam ímãs fora da China. A Ford para por uma semana a fábrica do Explorer em Chicago; montadoras europeias relatam linhas paradas. As exportações chinesas de ímãs caem 74% em relação a maio de 2024.
  4. 9/out/2025A China anuncia seis novas medidas: mais 5 elementos (európio, hólmio, érbio, túlio e itérbio), equipamentos e tecnologias, baterias de lítio e uma regra que alcança produtos feitos fora da China com 0,1% ou mais de terra rara chinesa no valor.
  5. 30/out/2025Trump e Xi Jinping se reúnem em Busan, na Coreia do Sul, e fecham uma trégua comercial de um ano.
  6. 7/nov/2025O Ministério do Comércio da China suspende as medidas de outubro até 10 de novembro de 2026. Os EUA, em troca, cortam tarifas e suspendem por um ano a regra que punia afiliadas de empresas sancionadas e as taxas portuárias sobre navios ligados à China.
  7. dez/2025Saem as primeiras licenças gerais, válidas por um ano, para três fabricantes chineses de ímãs. Não valem para defesa nem aeroespacial.
  8. mai/2026Cúpula em Pequim. A China promete “tratar das preocupações” americanas com ítrio, escândio e neodímio. O regime de licenças não muda.
  9. set/2026Os dois governos dizem que vão estender a trégua até 10 de janeiro de 2027. O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, afirma que isso inclui as terras raras; a nota chinesa fala em “medidas tarifárias e não tarifárias” e não cita terras raras.
  10. 10/nov/2026Vence, no texto legal chinês, a suspensão das medidas de outubro de 2025. Até 2 de novembro, nenhum novo anúncio tinha mudado essa data.
O que está em jogoO que fazSituação em 3/11/2026
Licença para 7 elementos (abril de 2025)Samário, gadolínio, térbio, disprósio, lutécio, escândio e ítrio, e os ímãs que os contêm, só saem da China com licença, caso a caso.Em vigor. Licenças gerais para alguns exportadores, fora defesa e aeroespacial.
Mais 5 elementos (outubro de 2025)Európio, hólmio, érbio, túlio e itérbio entrariam na mesma regra.Suspenso até 10/11/2026.
Regra do 0,1% (outubro de 2025)Produtos feitos fora da China com 0,1% ou mais de terra rara chinesa no valor precisariam de licença. Licença negada, em princípio, para uso militar.Suspenso até 10/11/2026.
Equipamentos, tecnologias e baterias (outubro de 2025)Máquinas de separação e de ímãs, tecnologias de mineração e reciclagem, baterias de lítio de alta densidade.Suspenso até 10/11/2026.

Os cenários possíveis, segundo consultorias que acompanham o tema:

  • Novo anúncio adiando o prazo para 10 de janeiro de 2027 ou depois, como os dois governos indicaram em setembro.
  • Prorrogação só no discurso, com o texto legal sem mudança. Pela letra da lei, as medidas voltariam a valer em 11 de novembro.
  • Volta parcial, só para alguns elementos ou usos, como defesa.
  • Volta total das medidas de outubro de 2025.
  • Um acordo maior entre EUA e China, que o Tesouro americano diz estar disposto a discutir.

Para o Brasil, a decisão importa por dois caminhos. O primeiro é o preço: quanto mais difícil comprar da China, mais vale uma terra rara de fora dela, e o Brasil é um dos poucos lugares com minério para isso. O segundo é a indústria: o país não separa terras raras nem fabrica ímãs em escala comercial, e o que usa em motores, geradores e eletrônicos vem de fora. A Agência Internacional de Energia (IEA) calcula que, se os controles de 2025 fossem aplicados por inteiro, até US$ 6,5 trilhões por ano de produção fora da China ficariam em risco, quase metade dela no setor automotivo.

Primeiro, o básico: o que são terras raras

Terras raras são 17 elementos químicos: os 15 lantanídeos, aquela linha que fica solta embaixo da tabela periódica, do lantânio (número 57) ao lutécio (71), mais o escândio (21) e o ítrio (39). Os dois últimos entram no grupo porque aparecem nos mesmos minérios e se comportam quimicamente de forma parecida.

O nome engana duas vezes. Não são terra: são metais prateados. “Terra” era como os químicos do século 18 chamavam os óxidos, o pó que sobrava quando se queimava um mineral. E não são raras: aparecem em quase todo lugar, mas espalhadas, em concentração baixa. O difícil é achar um depósito rico o bastante para valer a pena e, depois, separar um elemento do outro.

As 17 terras raras na tabela periódica

Toque num elemento colorido para ver para que serve, onde você encontra e quanto custa. Os filtros acendem só os de cada grupo.

No celular, a tabela mostra só as 17 terras raras, em ordem de número atômico. No computador, aparece a tabela periódica inteira.

LevePesadaOutros elementosLicença chinesa em vigorControle chinês suspenso até 10/11
17

elementos: os 15 lantanídeos (a linha de baixo, do lantânio ao lutécio) mais o escândio e o ítrio, que ficam lá em cima, na coluna 3, e aparecem nos mesmos minérios.

Os especialistas dividem o grupo em leves e pesadas. A fronteira muda de fonte para fonte; aqui usamos a do Serviço de Pesquisa do Congresso dos EUA: leves vão do lantânio ao gadolínio; pesadas, do térbio ao lutécio, mais o ítrio e o escândio. A divisão importa porque as pesadas são menos comuns, mais caras e mais concentradas na China, e são justamente as que o ímã precisa para aguentar calor.

Raras? Nem tanto

Em cada tonelada de rocha da crosta terrestre há, em média, 66 gramas de cério, mais que os 60 de cobre e bem mais que os 14 de chumbo. Até o túlio, a terra rara estável mais escassa, é mais de cem vezes mais comum que o ouro.

Mais comuns que o chumbo
Quantos gramas de cada elemento há, em média, em cada tonelada de rocha da crosta terrestre (partes por milhão). Em itálico, metais para comparar
DadoBruto.com
0,0010,010,1110100partes por milhão (escala que multiplica por 10 a cada linha)Cério66,5Cobre60Neodímio41,5Lantânio39Ítrio33Escândio22Chumbo14Praseodímio9,2Samário7,05Gadolínio6,2Disprósio5,2Érbio3,5Itérbio3,2Estanho2,3Európio2Hólmio1,3Térbio1,2Lutécio0,8Túlio0,52Prata0,075Ouro0,004
Fonte: CRC Handbook of Chemistry and Physics (abundância média na crosta). O promécio não aparece: só existe em traços. As estimativas variam entre fontes; o Serviço Geológico Britânico, por exemplo, dá 33 ppm para o cério e cerca de 50 para o cobre.
Tabela
ElementoPartes por milhão
Cério66,5
Cobre60
Neodímio41,5
Lantânio39
Ítrio33
Escândio22
Chumbo14
Praseodímio9,2
Samário7,05
Gadolínio6,2
Disprósio5,2
Érbio3,5
Itérbio3,2
Estanho2,3
Európio2
Hólmio1,3
Térbio1,2
Lutécio0,8
Túlio0,52
Prata0,075
Ouro0,004

O gargalo é a química. As terras raras são tão parecidas entre si que se separam por diferenças mínimas no tamanho dos átomos. A indústria usa a extração por solvente: o minério dissolvido passa por baterias de tanques em que cada etapa separa só um pouco de um elemento do outro. Separar um único par pode exigir mais de 20 etapas, e a cadeia inteira, muitas mais.

Os nomes contam essa história. Disprósio vem do grego dysprositos, “difícil de obter”: o químico que o isolou, em 1886, precisou de mais de 30 tentativas. Lantânio quer dizer “escondido”, porque estava escondido no minério de cério. E quatro terras raras, ítrio, itérbio, térbio e érbio, levam o nome da mesma vila sueca, Ytterby, onde um minério achado numa pedreira em 1787 rendeu elemento atrás de elemento por mais de um século.

Há ainda a radioatividade. A monazita, minério clássico das areias do litoral brasileiro, vem com tório, e muitos depósitos de rocha trazem urânio. Isso encarece o processamento e o licenciamento.

Para que servem: o ímã é o centro de tudo

A maior parte do valor das terras raras está num só produto: o ímã de neodímio-ferro-boro. Ele é pequeno, leve e muito forte, e por isso está em todo motor elétrico eficiente, de carro elétrico, de drone, de robô, de elevador, e nos geradores das turbinas eólicas maiores. Neodímio e praseodímio formam o ímã; disprósio e térbio, em pequena quantidade, fazem ele continuar funcionando quente, acima de 100 °C, como dentro de um motor.

1,5 a 5 kg

de ímã de neodímio no motor de um carro elétrico, conforme o modelo. Num carro com 2 kg de ímã, vão cerca de 1 kg de óxido de NdPr e 170 g de disprósio.

IRENA (2022); revisão de Habib e Wenzel (2014)
500 a 600 kg

de ímã por megawatt numa turbina eólica de acionamento direto, a que dispensa caixa de engrenagens. Uma turbina de 5 MW leva de 2,5 a 3 toneladas.

USGS (2017). Cálculo do Dado Bruto: 5 × 500 a 600 kg
197 mg

de terras raras num iPhone triturado e analisado: 160 mg de neodímio, 30 mg de praseodímio, 5 mg de gadolínio e 2 mg de disprósio.

Universidade de Plymouth (2019), um aparelho
18 vezes

mais energia magnética guarda o ímã de neodímio, por volume, que o ímã comum de ferrita, o da porta da geladeira. Foi inventado em 1984, ao mesmo tempo pela GM e pela Sumitomo.

Literatura técnica sobre ímãs NdFeB

Fora o ímã, as terras raras estão em catalisadores do refino de petróleo e do escapamento do carro (lantânio e cério), no pó que pole vidro e telas (cério), no fósforo que dá cor às telas e deixa branca a luz do LED (európio, térbio, ítrio), na fibra óptica da internet (érbio), em lasers industriais e médicos, no contraste dos exames de ressonância (gadolínio) e em remédios contra o câncer (lutécio-177).

Em dinheiro, é um mercado pequeno para o peso estratégico que tem. A consultoria Adamas Intelligence estima que os óxidos usados em ímãs (neodímio, praseodímio, disprósio e térbio) movimentaram US$ 9,7 bilhões em 2025 e podem chegar a US$ 68 bilhões em 2040. Para a IEA, a demanda por essas terras raras dobrou desde 2015 e deve crescer mais 30% até 2030.

As 17, uma a uma

Os elementos em ordem de número atômico. Os preços são do óxido, a forma em que as terras raras são negociadas, e variam muito conforme a pureza e o lugar da entrega.

21Sc

Escândio

Terra rara pesada · 22 ppm na crostalicença chinesa em vigor

Para que serve: Ligas de alumínio leves e resistentes; células a combustível de óxido sólido; lâmpadas de iodeto de escândio.

Onde você encontra: Refletores de estádio e quadros de bicicleta de alta gama.

Curiosidade: Mendeleev previu a existência dele, com o nome de eka-boro, antes que fosse descoberto, em 1879. Nome: Da Escandinávia.

Preço do óxido: China: cerca de US$ 592/kg (óxido; referência SMM, set/2026).

39Y

Ítrio

Terra rara pesada · 33 ppm na crostamedicinaluz e laserlicença chinesa em vigor

Para que serve: Fósforo que deixa branca a luz do LED (YAG); zircônia estabilizada em sensores e cerâmicas; supercondutor YBCO; ítrio-90 contra câncer de fígado.

Onde você encontra: LED branco e a sonda lambda do escapamento do carro.

Curiosidade: O supercondutor de ítrio, bário e cobre funciona a cerca de −178 °C: dá para resfriar com nitrogênio líquido, bem mais barato que hélio. Nome: Da vila de Ytterby, na Suécia.

Preço do óxido: China: US$ 8,2 a 8,7/kg. Fora da China: mais de US$ 1.100/kg.

57La

Lantânio

Terra rara leve · 39 ppm na crosta

Para que serve: Catalisador do refino de petróleo; bateria de níquel-hidreto metálico (NiMH); vidro óptico de alta refração.

Onde você encontra: Lentes de câmera e baterias de carros híbridos.

Curiosidade: O lantânio-138 tem meia-vida de cerca de 100 bilhões de anos e serve para datar rochas. Nome: Do grego lanthanein, “estar escondido”: estava escondido no minério de cério.

Preço do óxido: Cerca de US$ 1/kg (média de 2025, FOB China).

58Ce

Cério

Terra rara leve · 66,5 ppm na crosta

Para que serve: Pó de polimento de vidro e telas; catalisador do escapamento; pedra de isqueiro.

Onde você encontra: O isqueiro e o catalisador do carro.

Curiosidade: É a terra rara mais abundante, mais comum na crosta que o chumbo e o estanho. Uma liga com cerca de metade de cério solta faísca quando riscada: é a “pedra” do isqueiro. Nome: Do asteroide Ceres.

Preço do óxido: Cerca de US$ 1,71/kg (média de 2025, FOB China).

59Pr

Praseodímio

Terra rara leve · 9,2 ppm na crostaímã

Para que serve: Junto com o neodímio, no ímã de neodímio-ferro-boro; vidro dos óculos de soldador; pigmento amarelo de cerâmica.

Onde você encontra: Motor de carro elétrico e azulejos amarelos.

Curiosidade: Uma liga de praseodímio e níquel ajudou cientistas a chegar a um milésimo de grau do zero absoluto. Nome: Do grego prasios didymos, “gêmeo verde”.

Preço do óxido: Óxido de NdPr: US$ 103 a 106/kg na China; US$ 125 a 140/kg fora.

60Nd

Neodímio

Terra rara leve · 41,5 ppm na crostaímãluz e laser

Para que serve: O ímã mais forte que existe à venda (NdFeB): motores elétricos, geradores eólicos, alto-falantes, discos rígidos; laser Nd:YAG.

Onde você encontra: Fone de ouvido, vibração do celular e motor de carro elétrico. Um iPhone analisado tinha 160 mg.

Curiosidade: A luz verde das canetas laser costuma vir de um laser de neodímio com a frequência dobrada. Nome: Do grego neos didymos, “gêmeo novo”.

Preço do óxido: Óxido de NdPr: US$ 103 a 106/kg na China; US$ 125 a 140/kg fora.

61Pm

Promécio

Terra rara leve · só em traços na natureza

Para que serve: Baterias nucleares de longa duração (promécio-147) e medidores de espessura.

Onde você encontra: Nenhum objeto comum.

Curiosidade: É radioativo e quase não existe na Terra: foi isolado em 1945, em Oak Ridge (EUA), a partir de restos de fissão nuclear. Nome: De Prometeu, o titã que roubou o fogo dos deuses.

Preço do óxido: Não tem mercado.

62Sm

Samário

Terra rara leve · 7,05 ppm na crostaímãmedicinalicença chinesa em vigor

Para que serve: Ímã de samário-cobalto, que aguenta calor (aviação, defesa, sensores); samário-153 em tratamento de câncer; barras de controle de reator.

Onde você encontra: Captadores de guitarra e sensores de alta temperatura.

Curiosidade: Costuma ser citado como o primeiro elemento com nome de pessoa, ainda que indiretamente, pelo mineral. O ímã de samário-cobalto só perde o magnetismo acima de 700 °C. Nome: Do mineral samarskita, que homenageia o engenheiro russo Samarsky.

Preço do óxido: China: US$ 23 a 26/kg. Fora da China: de US$ 100 a mais de 1.000/kg, com poucos negócios.

63Eu

Európio

Terra rara leve · 2 ppm na crostaluz e lasercontrole chinês suspenso

Para que serve: Fósforo vermelho de telas e lâmpadas; tinta antifalsificação.

Onde você encontra: As notas de euro.

Curiosidade: Sob luz ultravioleta, as notas de euro brilham em vermelho por causa de um composto de európio. Nome: Da Europa.

Preço do óxido: China: cerca de US$ 25/kg (referência SMM, set/2026).

64Gd

Gadolínio

Terra rara leve · 6,2 ppm na crostamedicinalicença chinesa em vigor

Para que serve: Contraste injetado em exames de ressonância magnética; absorvedor de nêutrons em reatores.

Onde você encontra: O contraste do exame de ressonância.

Curiosidade: Perde o magnetismo perto de 20 °C, quase a temperatura ambiente: por isso é o material de teste das geladeiras magnéticas. Nome: Do químico finlandês Johan Gadolin.

Preço do óxido: China: US$ 25 a 28/kg. Fora da China: US$ 2.500 a 3.400/kg.

65Tb

Térbio

Terra rara pesada · 1,2 ppm na crostaímãluz e laserlicença chinesa em vigor

Para que serve: Aditivo que deixa o ímã de neodímio funcionar no calor; fósforo verde; Terfenol-D, liga que muda de tamanho com o campo magnético (sonar).

Onde você encontra: Motor de carro elétrico e lâmpada fluorescente.

Curiosidade: Alguns compostos de térbio brilham quando o cristal é partido (triboluminescência). Também está nas notas de euro. Nome: Da vila de Ytterby, na Suécia.

Preço do óxido: China: US$ 896 a 904/kg. Fora da China: US$ 10.000 a 13.000/kg.

66Dy

Disprósio

Terra rara pesada · 5,2 ppm na crostaímãlicença chinesa em vigor

Para que serve: Aditivo que mantém o ímã de neodímio forte em alta temperatura; barras de controle de reator.

Onde você encontra: Motor de carro elétrico e turbina eólica.

Curiosidade: O francês Lecoq de Boisbaudran precisou de mais de 30 tentativas para isolá-lo, em 1886, fazendo as precipitações na laje de mármore da lareira de casa. Nome: Do grego dysprositos, “difícil de obter”.

Preço do óxido: China: US$ 196 a 201/kg. Fora da China: US$ 2.500 a 5.500/kg.

67Ho

Hólmio

Terra rara pesada · 1,3 ppm na crostaímãmedicinacontrole chinês suspenso

Para que serve: Peças que concentram o campo de ímãs muito fortes; laser médico.

Onde você encontra: O laser que quebra pedra nos rins.

Curiosidade: Tem o maior momento magnético entre os elementos naturais. Em 2017, a IBM gravou 1 bit de informação num único átomo de hólmio. Nome: De Holmia, nome latino de Estocolmo.

Preço do óxido: China: US$ 90 a 93/kg. Fora da China: sem cotação confiável.

68Er

Érbio

Terra rara pesada · 3,5 ppm na crostaluz e lasercontrole chinês suspenso

Para que serve: Amplificador de sinal da fibra óptica; vidro e cristal cor-de-rosa; laser.

Onde você encontra: A internet por fibra.

Curiosidade: A internet de longa distância usa luz de 1,55 micrômetro porque é nessa cor que o érbio amplifica o sinal. Nome: Da vila de Ytterby, na Suécia.

Preço do óxido: China: cerca de US$ 88/kg (referência SMM, set/2026).

69Tm

Túlio

Terra rara pesada · 0,52 ppm na crostamedicinacontrole chinês suspenso

Para que serve: Raio-X portátil (túlio-170); laser cirúrgico.

Onde você encontra: Quase nenhum: o mundo extrai cerca de 50 toneladas por ano.

Curiosidade: É a terra rara estável mais rara. O químico T. W. Richards fez cerca de 15 mil recristalizações para medir a massa atômica dele, trabalho que entrou no Nobel de 1914. Nome: De Thule, nome antigo do extremo norte da Europa.

Preço do óxido: Sem cotação regular.

70Yb

Itérbio

Terra rara pesada · 3,2 ppm na crostaluz e lasercontrole chinês suspenso

Para que serve: Laser de fibra para corte e gravação industrial; relógios atômicos; raio-X portátil.

Onde você encontra: Gravação a laser em metal e plástico.

Curiosidade: Em 2013, relógios atômicos de itérbio do NIST, nos EUA, bateram o recorde de estabilidade. Nome: Da vila de Ytterby, na Suécia.

Preço do óxido: China: cerca de US$ 13/kg (referência SMM, set/2026).

71Lu

Lutécio

Terra rara pesada · 0,8 ppm na crostamedicinalicença chinesa em vigor

Para que serve: Catalisador da petroquímica; lutécio-177 em tratamento de câncer de próstata.

Onde você encontra: Medicina nuclear.

Curiosidade: Foi a última terra rara natural a ser isolada, em 1907. Em 2022, a FDA aprovou o primeiro remédio com lutécio-177 para câncer de próstata metastático. Nome: De Lutetia, nome latino de Paris.

Preço do óxido: China: cerca de US$ 668/kg (referência SMM, set/2026).

Quanto valem: dois preços para o mesmo metal

Até 2025, havia um preço de referência para cada terra rara, e ele era chinês. Com as licenças, surgiram dois mercados. Dentro da China, onde sobra oferta, o preço ficou baixo. Fora dela, quem precisa de disprósio, térbio ou ítrio paga muitas vezes mais, e com poucos vendedores.

Em outubro de 2026, o óxido de disprósio valia cerca de US$ 200 o quilo na China e de US$ 2.500 a 5.500 em Roterdã. O de térbio, US$ 900 contra US$ 10 mil a 13 mil. A consultoria Benchmark calculou que, em setembro, o disprósio na Europa custava 16 vezes o preço chinês. Para o NdPr, a mistura de neodímio e praseodímio que vai no ímã e que é produzida em mais lugares, a diferença é pequena.

Na China e fora dela
Preço do óxido em outubro de 2026, em dólares por quilo, em escala que multiplica por 10 a cada linha. O losango é o preço mínimo que o governo dos EUA garantiu à mina da Serra Verde, em Goiás
DadoBruto.com
US$ 1US$ 10US$ 100US$ 1.000US$ 10.000Na ChinaFora da China (faixa)Piso garantido à Serra Verde (GO)NdPr (neodímio + praseodímio)China 104 · fora 125–140 · 1,3×DisprósioChina 198 · fora 2.500–5.500 · 20×TérbioChina 900 · fora 10.000–13.000 · 13×GadolínioChina 27 · fora 2.500–3.400 · 110×Ítrio+China 8,4 · fora 1.100+
Fonte: Rare Earth Exchanges, cotações de 17/10/2026 (estimativas de mercado, não oficiais): China ex-works sem imposto, fora da China CIF Roterdã. Ítrio fora da China: “acima de US$ 1.100”. Pisos: contrato de compra da USA Rare Earth com o governo dos EUA (abr/2026). O multiplicador usa o meio de cada faixa.
Tabela
ÓxidoChina (US$/kg)Fora da China (US$/kg)Piso Serra Verde
NdPr (neodímio + praseodímio)103 a 106125 a 140110
Disprósio196 a 2012.500 a 5.500575
Térbio896 a 90410.000 a 13.0002.050
Gadolínio25 a 282.500 a 3.400–
Ítrio8,2 a 8,7acima de 1.100–

Esses preços mínimos são a outra novidade. Para garantir oferta fora da China, o governo americano passou a assinar contratos que pagam um piso às minas, mesmo que o preço chinês caia. O contrato da Serra Verde, em Minaçu (GO), garante US$ 110 o quilo de NdPr, US$ 575 de disprósio e US$ 2.050 de térbio, por 15 anos.

O preço chinês também oscila muito. O óxido de NdPr foi de US$ 92 o quilo, em média, em 2021, a US$ 124 em 2022, com a corrida dos carros elétricos, e caiu a US$ 55 em 2024, com a China produzindo mais. Essa volatilidade, que derruba o preço quando um concorrente tenta entrar, é um dos motivos de quase ninguém fora da China ter conseguido se firmar.

O preço do NdPr sobe e desce
Preço médio anual do óxido de neodímio e praseodímio, FOB China, em dólares por quilo
DadoBruto.com
0501009220211242022752023552024692025
Fonte: USGS, Mineral Commodity Summaries 2026, com dados da Argus Media. 2025 é estimativa.

Quem tem e quem faz

A China tem 59% das reservas conhecidas e fez 69% da mineração mundial em 2025, segundo o Serviço Geológico dos EUA (USGS). Mas o domínio cresce a cada etapa da cadeia. Os EUA, por exemplo, são o 2º maior minerador e, até pouco tempo, mandavam quase todo o concentrado para ser separado na China.

Quanto mais longe da mina, mais chinês
Participação da China em cada etapa da cadeia das terras raras usadas em ímãs, em 2024
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Mineração60% Chinaresto 40%Refino e separação91% Chinaresto 9%Ímãs permanentes (sinterizados)94% Chinaresto 6%
Fonte: Agência Internacional de Energia (IEA), relatório sobre terras raras de 2026, com dados de 2024. Em 2005, a China fazia cerca de metade dos ímãs.
O Brasil tem a 2ª maior reserva e quase não produz
Participação de cada país nas reservas conhecidas e na produção mundial de 2025, em óxidos de terras raras
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% das reservas do mundo% da produção de 2025China58,7%69,2%Brasil14,7%0,5%Austrália8,4%7,4%EUA2,5%13,1%Rússia5,1%0,7%Vietnã4,7%0,04%Mianmarsem dado5,6%Groenlândia2,0%não produzTailândiasem dado1,2%Índiasem dado0,7%
Fonte: USGS, Mineral Commodity Summaries 2026 (versão 1.3, de 27/05/2026). Reservas sobre um total de “mais de 75 milhões de toneladas”; produção sobre 390 mil toneladas. Mianmar, Tailândia e Índia não têm reserva estimada. Cálculo do Dado Bruto.
Tabela
PaísReservas (milhões de t)% das reservasProdução 2025 (mil t)% da produção
China44,0058,7270,069,2
Brasil11,0014,72,00,5
Austrália6,308,429,07,4
Rússia3,805,12,60,7
Vietnã3,504,7––
EUA1,902,551,013,1
Groenlândia1,502,0––
Tanzânia0,891,2––
África do Sul0,861,1––
Canadá0,831,1––
Mianmarsem dado–22,05,6
Tailândiasem dado–4,81,2
Índiasem dado–2,90,7
Madagascarsem dado–2,70,7
Nigériasem dado–1,50,4

Um detalhe sobre o número do Brasil: até maio de 2026, o USGS atribuía ao país 21 milhões de toneladas, um quarto das reservas mundiais, número que ainda circula. Na versão revisada do relatório, passou a usar o dado da Agência Nacional de Mineração, 11 milhões. O Brasil continua em 2º lugar, com cerca de 15%. E a conta ainda não inclui a maior parte das argilas iônicas descobertas nos últimos anos, que estão na fase de pesquisa.

O Brasil na corrida

O Brasil já foi o maior produtor de terras raras do mundo. A exploração das areias de monazita começou em 1887, em Cumuruxatiba, no Prado (BA), e até 1915 nenhum país produzia mais. O interesse era o tório, usado nas camisas dos lampiões a gás. Nos anos 1940 e 1950, a paulista Orquima separava terras raras em São Paulo. Depois o setor foi estatizado por causa do urânio e do tório, passou pela Nuclemon e pela INB, e a separação em escala industrial parou nos anos 1990.

Hoje, uma única mina produz no país: a da Serra Verde, em Minaçu (GO), que começou em 2024 e foi comprada em 2026 pela USA Rare Earth, americana, por cerca de US$ 2,8 bilhões. Ela tem financiamento de US$ 565 milhões da agência de desenvolvimento do governo dos EUA e contrato para vender toda a produção da primeira fase aos EUA por 15 anos, com os preços mínimos do gráfico acima. Até agora, o concentrado ia para a China; o contrato com os compradores chineses termina no fim de 2026.

O Brasil produziu 2 mil toneladas em 2025, contra 560 em 2024. A meta da Serra Verde é chegar a 6.500 toneladas por ano até o fim de 2027. Atrás dela vem uma fila de projetos, a maioria de empresas australianas e canadenses: um levantamento da Folha de S.Paulo contou pelo menos 18 grupos estrangeiros, com mais de US$ 3,5 bilhões gastos ou planejados.

Onde estão as terras raras do Brasil
A mina em produção, os principais projetos e a fábrica-laboratório de ímãs. O número leva à lista ao lado; o nome da cidade, à página dela no Dado Bruto
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123456789
Em produçãoProjetoMonazitaÍmãs (pesquisa)
  1. 1
    Serra Verde (mina Pela Ema) · Minaçu (GO)
    USA Rare Earth (EUA). Em produção desde 2024. Argila iônica.
  2. 2
    Carina · Nova Roma (GO)
    Aclara (Canadá). Estudo de viabilidade. Produção prevista para o 2º semestre de 2028.
  3. 3
    Colossus · Poços de Caldas (MG)
    Viridis (Austrália). Licença prévia em dez/2025. Produção prevista para o 2º semestre de 2028.
  4. 4
    Caldeira · Caldas (MG)
    Meteoric (Austrália), em compra pela Lynas. Na divisa com Poços de Caldas. Licença prévia. Licença de instalação esperada no 4º trimestre de 2026.
  5. 5
    Araxá · Araxá (MG)
    St George Mining (Austrália). Recurso medido em mar/2026: 70,9 milhões de t a 4,06% de óxidos.
  6. 6
    Monte Alto · Ubaíra (BA)
    Brazilian Rare Earths (Austrália). Entre Ubaíra e Jiquiriçá. Estudo inicial. Produção prevista para 2031, com separação planejada em Camaçari.
  7. 7
    Pitinga · Presidente Figueiredo (AM)
    Mineração Taboca (CNMC, estatal chinesa). Mina de estanho com terras raras no minério; sem projeto dedicado.
  8. 8
    Buena · São Francisco de Itabapoana (RJ)
    ADL Mineração (Brasil), cedida pela INB. Areia de monazita. Primeira exportação privada em abr/2026.
  9. 9
    Fábrica-laboratório de ímãs · Lagoa Santa (MG)
    CIT SENAI ITR (FIEMG). Faz ímãs para pesquisa, até 100 t/ano, sem venda.
Fonte: empresas (relatórios à SEC, à ASX e à TSX), ANM, SGB, CIT SENAI e imprensa especializada, consultados até 03/11/2026. Outros projetos em pesquisa: Ema (AM), Caladão (MG), Iporá (GO), Patos de Minas e Mata da Corda (MG).

Por que o Brasil interessa tanto, e o que falta:

As vantagens

  • Argila iônica. É o minério das terras raras pesadas, as mais caras: as terras raras ficam grudadas na argila e se soltam com uma solução salina, sem britar rocha. Quase todo o disprósio e o térbio do mundo vêm de argilas assim no sul da China e em Mianmar. A Serra Verde é a primeira mina desse tipo em produção fora da Ásia, e o Brasil tem vários outros depósitos em Goiás e Minas.
  • Menos radioatividade. A argila da Serra Verde tem menos tório e urânio que as rochas exploradas nos EUA e na Austrália.
  • Tamanho. A 2ª maior reserva do mundo, e a pesquisa mal começou: o gasto com pesquisa mineral de terras raras foi de R$ 2 milhões em 2021 a R$ 90 milhões em 2024, segundo a ANM.
  • Experiência mineral. O país tem cerca de 94% das reservas mundiais de nióbio e uma indústria de mineração grande.
  • Quem compraria aqui. A WEG já fabrica motores com ímã permanente, e o país tem montadoras e indústria eólica.
  • Sem lado. O governo diz vender a quem investir, sem parceiro preferencial, o que interessa a EUA, Europa, Japão e China.

Os gargalos

  • Não separa. O Brasil não tem separação comercial de terras raras. Vende concentrado, que fica com menos de 5% do valor da cadeia, segundo o Observatório da Mineração.
  • Não faz ímã. O único fabricante é a fábrica-laboratório do CIT SENAI, em Lagoa Santa (MG), que produz até 100 toneladas por ano para pesquisa, sem venda.
  • Tempo. Os próximos projetos só devem produzir entre o 2º semestre de 2028 e 2031.
  • Licença e ambiente. O órgão ambiental de Goiás recomendou multa de R$ 12,5 milhões à Serra Verde por poluição de córrego e apontou mais de 300 hectares desmatados sem autorização. Em Poços de Caldas, o Ministério Público Federal estima que 98 nascentes podem ser afetadas pelo projeto Caldeira.
  • Dinheiro. A chamada de R$ 5 bilhões do BNDES e da Finep para minerais estratégicos selecionou 56 projetos em 2025; até outubro de 2026, só 3 operações tinham sido aprovadas.
  • Destino. Parte do que sair dos novos projetos já tem endereço fora: a Aclara vai separar nos EUA, e a St George assinou acordos preliminares com compradores chineses.

O que quase ninguém está contando

Lendo o que saiu na imprensa brasileira nos últimos meses, cinco pontos aparecem pouco, ou aparecem errados. Todos estão em dados públicos.

1. O Brasil vende o minério e compra de volta o dobro

Em 2025, segundo a Agência Nacional de Mineração, o Brasil exportou US$ 14,9 milhões em concentrado de terras raras, o produto bruto da mina. No mesmo ano, importou US$ 30,6 milhões em óxidos, ímãs e outros produtos já transformados. Ou seja: vendeu a matéria-prima e pagou mais que o dobro para comprar o que sai dela depois de separada e processada, em boa parte na China.

Vende bruto, compra pronto
Comércio exterior de terras raras do Brasil em 2025, em milhões de dólares
DadoBruto.com
Exportou: concentrado de terras rarasUS$ 14,9 miImportou: óxidos, ímãs e outros produtos já transformadosUS$ 30,6 mi
Fonte: ANM, Portal de Minerais Críticos e Estratégicos (dados divulgados em 14/10/2026). A importação inclui óxidos de terras raras e ímãs, e a ANM não separa os dois.

2. A “explosão” de pedidos de pesquisa já passou do pico

Em junho, uma manchete se espalhou por vários sites, do InfoMoney ao O Povo: os pedidos de pesquisa de terras raras na ANM teriam “disparado” em 2026 e chegado a 84% do total de 45 anos. Os números por trás dela contam outra história. Os 401 pedidos de 2026, até 8 de junho, equivalem a 84% dos 476 feitos de 1975 a 2020, mas só em 2023, 2024 e 2025 foram 2.574. O recorde foi 2024, com 1.018. Em 2025 houve 655. Se 2026 mantiver o ritmo do primeiro semestre, fecha perto de 920, abaixo de 2024.

A corrida é real: o número de áreas em pesquisa saltou, e a ANM conta 3.067 hoje. Mas só 4 estão em lavra ativa, todas em Goiás.

Os pedidos subiram até 2024 e depois caíram
Pedidos de pesquisa de terras raras protocolados na ANM por ano
DadoBruto.com
04008001.20090120231.01820246552025no mesmo ritmo, ~9204012026até 8/jun
Fonte: ANM, dados apresentados em evento do setor e publicados pela Agência Brasil (10/06/2026). Contorno tracejado: palpite do Dado Bruto, projeção linear dos 401 pedidos em 159 dias para o ano inteiro (~920). Outro levantamento com dados da ANM, da Jazida para a Agência iNFRA, dá 895, 1.108 e 683 para 2023 a 2025: a tendência é a mesma.

3. EUA e China já têm, cada um, uma mina de terras raras no Brasil

A disputa entre as duas potências costuma aparecer como algo que vai acontecer. Já aconteceu. A única mina em produção, a Serra Verde, em Minaçu (GO), é americana desde setembro. E a Mineração Taboca, dona da mina de Pitinga, em Presidente Figueiredo (AM), foi comprada em novembro de 2024 pela estatal chinesa CNMC, por US$ 340 milhões. Pitinga é uma mina de estanho, mas o minério traz xenotima, rica em terras raras pesadas; não há, por enquanto, projeto para extraí-las.

O resto da fila é quase toda australiana: Viridis, Meteoric (em compra pela australiana Lynas, a maior produtora de terras raras separadas fora da China), Brazilian Rare Earths, St George, Axel e outras. Dos nove pontos do mapa acima, só dois são de controle brasileiro, e nenhum deles separa terras raras.

4. A venda da Serra Verde foi fechada 13 dias antes da nova lei

A compra da Serra Verde pela USA Rare Earth foi concluída em 3 de setembro de 2026. Em 16 de setembro, Lula sancionou a lei que cria um conselho federal com poder de aprovar mudanças de controle de empresas do setor. Um dia antes, em documento à SEC, a comissão de valores dos EUA, a própria empresa listou a nova lei, as eleições brasileiras e o “escrutínio político” sobre controle estrangeiro de minerais estratégicos entre os riscos do negócio, segundo a Repórter Brasil. Em abril, a Rede Sustentabilidade tinha pedido ao Supremo a suspensão da venda.

A lei ainda depende de regulamentação, e o texto não deixa claro se alcança negócios fechados antes da sanção.

5. O que fica para Minaçu

De 2024 a abril de 2026, a exploração de terras raras em Minaçu gerou R$ 5,1 milhões de CFEM, o royalty da mineração, segundo a ANM, citada pelo jornal O Popular. Pela regra da CFEM, 60% ficam com o município produtor: cerca de R$ 3 milhões em mais de dois anos (cálculo do Dado Bruto). A empresa dona da mina foi vendida por cerca de US$ 2,8 bilhões. O valor do royalty cresce com a produção, que deve triplicar até o fim de 2027, mas a comparação mostra onde fica o dinheiro quando o país só extrai.

A nova lei e a disputa política

Em 16 de setembro de 2026, o presidente Lula sancionou sem vetos a Lei 15.506, a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, que saiu de um projeto do deputado Zé Silva (União-MG) aprovado em votação simbólica na Câmara e no Senado. Os principais pontos:

  • Cria um conselho de 18 membros, presidido pela Casa Civil, que precisa aprovar mudanças de controle de empresas do setor, participação estrangeira relevante e acordos internacionais de fornecimento.
  • Dá crédito de até 20% do gasto com processamento e transformação no país, abatido da CSLL, com teto de R$ 1 bilhão por ano de 2030 a 2034. Quanto mais etapas da cadeia feitas aqui, maior o benefício.
  • Cria um fundo garantidor para projetos do setor, com até R$ 2 bilhões da União.
  • Exige consulta prévia a indígenas e comunidades tradicionais afetados.

O tema virou disputa entre União e estados. Em março, o governo de Goiás, de Ronaldo Caiado, assinou com a embaixada dos EUA um memorando, sem força de contrato, para cooperar em mapeamento geológico, separação e ímãs; Lula criticou o acordo. Pela nova lei, acordos internacionais de fornecimento passam a depender do conselho federal. Em maio, na Casa Branca, Lula disse a Trump que o Brasil divide suas terras raras com quem investir aqui, sem parceiro preferencial e com processamento no país. A proposta americana de acordo bilateral, apresentada em fevereiro, não tinha sido assinada até agosto.

Boato e fato

“Terras raras são raras.”
Não. O cério é quase tão comum quanto o cobre. Raro é o depósito concentrado, e difícil é separar os elementos.
“O Brasil tem 25% das reservas do mundo.”
Era o número antigo do USGS. Desde maio de 2026 o próprio USGS usa 11 milhões de toneladas, cerca de 15%. O Brasil segue em 2º.
“A China proibiu a exportação de terras raras.”
Não. Exige licença para sete elementos desde abril de 2025 e ameaçou estender a regra a mais cinco e a produtos feitos fora do país. Ela proíbe, sim, exportar a tecnologia de separação.
“O Brasil já fabrica ímãs de terras raras.”
Só em escala de laboratório, em Lagoa Santa (MG), para pesquisa e sem venda.
“Um caça F-35 leva 417 kg de terras raras.”
O número vem de um estudo do Pentágono de 2012 que nunca foi publicado, sem metodologia conhecida. Não dá para confirmar.
“Terra rara é um tipo de terra.”
São metais. “Terra” era o nome antigo dos óxidos.

O que observar daqui para frente

  • Até 10 de novembro: se o Ministério do Comércio da China publica um anúncio adiando a suspensão, e para quando.
  • 10 de janeiro de 2027: a nova data da trégua EUA-China, segundo os dois governos.
  • Fim de 2026: termina o contrato da Serra Verde com compradores chineses; a produção passa a ir para os EUA.
  • 4º trimestre de 2026: licença de instalação do projeto Caldeira (MG) e decisão final de investimento do Colossus (MG).
  • 2027: regulamentação da Lei 15.506 e meta de 6.500 toneladas por ano da Serra Verde.
  • 2028 em diante: início previsto da produção de Carina (GO), Colossus e Caldeira (MG).

Fontes e método

  • Reservas, produção e preços médios anuais: USGS, Mineral Commodity Summaries 2026, capítulo de terras raras (versão 1.3, de 27/05/2026), com preços da Argus Media. Reservas e produção em toneladas de óxidos de terras raras.
  • Participação da China na cadeia (mineração, refino, ímãs) e risco de US$ 6,5 trilhões: Agência Internacional de Energia, relatório sobre terras raras (2026), dados de 2024.
  • Controles chineses: anúncios do Ministério do Comércio da China nº 18/2025 (abril), 55 a 58, 61 e 62/2025 (outubro) e 70/2025 (suspensão), com resumos de escritórios de advocacia (Pillsbury, Jones Day) e da Casa Branca (ficha de 1/11/2025); declarações de set/2026 do Tesouro dos EUA e do Ministério do Comércio chinês.
  • Preços de outubro de 2026: Rare Earth Exchanges (17/10/2026), estimativas de mercado não oficiais. Para escândio, európio, érbio, itérbio e lutécio, referência da SMM (30/09/2026) reproduzida por agregador. Lantânio e cério: média de 2025 do USGS. Diferença de 16 vezes do disprósio: Benchmark Mineral Intelligence (revisão do 3º trimestre de 2026).
  • Abundância: CRC Handbook of Chemistry and Physics. Classificação em leves e pesadas: Serviço de Pesquisa do Congresso dos EUA (CRS, 2026). Usos, nomes e curiosidades: Royal Society of Chemistry e literatura técnica.
  • Conteúdo por produto: IRENA (2022), USGS (2017), Habib e Wenzel (2014), Universidade de Plymouth (2019). Mercado de óxidos de ímã: Adamas Intelligence (jan/2026).
  • Brasil: ANM (Sumário Mineral); Serra Verde e USA Rare Earth (comunicados à SEC, abr. e ago./2026); estudos de viabilidade de Aclara, Viridis, Meteoric e Brazilian Rare Earths; CETEM e Jornal da USP (história); Observatório da Mineração (set/2026); A Pública (licenciamento da Serra Verde); Folha de S.Paulo (empresas estrangeiras, out/2026); Lei 15.506/2026 e resumo do escritório Mayer Brown.
  • Comércio exterior, áreas em pesquisa e lavra: ANM, Portal de Minerais Críticos e Estratégicos (14/10/2026). Pedidos de pesquisa: ANM via Agência Brasil (10/06/2026) e Jazida via Agência iNFRA (13/02/2026). CFEM de Minaçu: ANM via O Popular. Riscos citados pela USA Rare Earth à SEC: Repórter Brasil (23/09/2026). Compra da Taboca pela CNMC: Mineração Brasil (26/11/2024).
  • Mapa: coordenadas da sede de cada município (IBGE). O ponto marca o município, não a mina.
  • Dados: os 17 elementos (CSV) · reservas e produção por país (CSV) · preços na China e fora (CSV).

O que os dados não permitem afirmar

  • O que a China vai decidir até 10 de novembro. Este texto será atualizado quando houver anúncio.
  • Quanto do valor importado em 2025 é ímã e quanto é óxido: a ANM informa só o total, e o Comex Stat não estava acessível na consulta.
  • Quanto o Brasil produziu de fato em 2025: o USGS registra 2 mil toneladas de óxidos; a ANM, 326 toneladas de concentrado. As duas contas usam bases diferentes, e nenhuma das fontes explica a diferença.
  • Quanto da reserva brasileira é argila iônica: a maior parte desses depósitos ainda é recurso em estudo, não reserva.
  • Preços fora da China com precisão: há poucos negócios, as faixas são largas e as cotações não são oficiais.
  • Se os projetos vão cumprir os prazos. Na mineração, atrasos de anos são comuns, sobretudo no licenciamento.
Correções: nenhuma até o momento. Texto de 03/11/2026; será atualizado depois de 10/11/2026, com a decisão da China.

Como funciona

Pode reutilizar. Os gráficos e os dados desta análise podem ser copiados e republicados, até para fins comerciais, sob a licença CC BY 4.0. Basta citar “dadobruto.com” e, na internet, linkar para esta página ou para dadobruto.com. Os números originais seguem as regras de cada fonte citada. O texto da análise pode ser republicado inteiro, sem edição, com a linha de crédito no início, sob a licença CC BY-ND 4.0: veja como republicar.

Como citar: Dado Bruto. Terras raras: o que são, para que servem e onde o Brasil entra nessa disputa. Código DB-AN-0017. Publicado em 03/11/2026. https://dadobruto.com/analises/terras-raras

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