Cinco cortes depois, o Brasil segue no topo do pódio dos juros reais
A Selic caiu para 13,75%, mas descontada a inflação esperada o juro brasileiro ainda é o maior entre 40 países, mais de cinco vezes a média do grupo. Como chegamos aqui, em três gráficos.
Por Dado Bruto · 12 out. 2026 · 7 min de leituraFontes e método
Em 16 de setembro de 2026, o Copom reduziu a Selic de 14% para 13,75% ao ano, o quinto corte seguido. No mesmo dia, um levantamento da MoneYou com a Lev Intelligence comparou o juro real de 40 países, isto é, a taxa de juros descontada da inflação esperada para os próximos 12 meses. O Brasil ficou em primeiro, com 8,45% ao ano, 1,66 ponto acima da Rússia. A média dos 40 países foi de 1,62%.
No juro nominal, o Brasil é só o quarto: Turquia (37%), Argentina (29%) e Rússia (14%) cobram mais. A diferença é que nesses países a inflação também é muito mais alta. Aqui, a inflação está perto de 4% a 5%, e o juro continua alto.
Juro real ex-ante, % ao ano, setembro de 2026
Brasil
8,45
Rússia
6,79
Colômbia
6,33
Turquia
6,25
Média de 40 países
1,62
Juro nominal de 1 ano descontada a inflação esperada em 12 meses. Para o Brasil, usa o DI de 1 ano. Fonte: MoneYou e Lev Intelligence, via Poder360 (16/9/2026).
Seis anos em duas linhas
O pódio atual é resultado de uma montanha-russa. Na pandemia, o Banco Central levou a Selic ao menor nível da história, e a taxa efetiva ficou em 1,90% ao ano até o começo de 2021. A inflação, que estava em 2% a 4%, disparou e chegou a 12,13% em 12 meses em abril de 2022.
O BC respondeu com um ciclo de alta forte e rápido: em cerca de um ano e meio, a Selic efetiva foi de 1,90% para 13,65%. A inflação cedeu, a Selic caiu para perto de 10,40% em 2024, voltou a subir até 14,90% em 2025 e só começou a cair em março de 2026.
Selic efetiva e inflação em 12 meses, % ao ano
SelicIPCA 12 meses
Selic efetiva acumulada no mês, anualizada (BCB/SGS 4189). IPCA acumulado em 12 meses (BCB/SGS 13522). Jan/2019 a jul/2026.
A distância entre as duas linhas é o juro real. Olhando para trás, com a inflação que de fato aconteceu, ele ficou negativo por 22 meses seguidos, de julho de 2020 a abril de 2022, e chegou a −4,4% em julho de 2021. Quem deixou dinheiro na poupança ou no CDI nesse período perdeu poder de compra.
Depois, a situação se inverteu. Em fevereiro de 2026, o juro real passado chegou a 10,7%, o maior do período. Em julho estava em 9,3%.
Juro real ex-post: Selic descontado o IPCA de 12 meses, % ao ano
Cálculo do Dado Bruto: (1 + Selic) ÷ (1 + IPCA 12m) − 1, com as séries SGS 4189 e 13522. Faixa: período de juro real negativo.
Por que o número do ranking é diferente
O ranking usa juro real ex-ante: o DI de um ano descontado da inflação que o mercado espera para os próximos 12 meses (4,71%, segundo o Focus). O gráfico acima usa juro real ex-post: a Selic de hoje descontada da inflação que já passou. As duas medidas costumam andar juntas, mas respondem a perguntas diferentes. A primeira diz quanto custa o dinheiro daqui para a frente; a segunda, quanto rendeu ou custou até agora.
Por que tão alto
Não há uma única explicação, e economistas discordam sobre o peso de cada uma. As mais citadas são quatro. A primeira é a expectativa de inflação acima da meta: o Focus projeta 4,90% para 2026, contra uma meta de 3%. A segunda é a dúvida sobre a trajetória da dívida pública, que leva investidores a pedir prêmio maior. A terceira é o crédito direcionado e subsidiado, que reduz o efeito da Selic sobre parte da economia e obriga o BC a subir mais a taxa. A quarta é a indexação de preços e contratos, que faz a inflação passada se repetir.