Quanto o mercado erra: 25 anos de projeções para inflação, PIB e juros
A expectativa de dezembro para o ano seguinte errou a inflação em 1,6 ponto, o PIB em 1,6 e a Selic em 2,5, em média. Mas o erro cai muito conforme o ano passa, e os grandes erros se concentram em poucos anos de choque.
1,6 p.p.erro médio da inflação prevista em dezembro para o ano seguinte
1,6 p.p.erro médio do PIB, na mesma data
2,5 p.p.erro médio da Selic de fim de ano, na mesma data
0,75 p.p.erro médio da inflação prevista em outubro do próprio ano
Toda semana, o Banco Central pergunta a bancos, corretoras e consultorias o que eles esperam para a inflação, o crescimento da economia e os juros. As respostas viram o boletim Focus, e a mediana delas é a referência do que se chama de "o mercado". Este texto pega 25 anos desse boletim, de 2000 a 2025, e compara o que se esperava com o que aconteceu.
A régua é a mesma para os três indicadores. Para cada ano, olhamos a expectativa em cinco datas: janeiro e dezembro do ano anterior, e janeiro, julho e outubro do ano em questão. O resultado vem do IBGE (IPCA e PIB) e da meta Selic em 31 de dezembro. Erro é sempre a diferença entre o que se esperava e o que ocorreu, em pontos percentuais.
A conclusão curta: a expectativa de dezembro para o ano seguinte errou, em média, 1,6 ponto percentual na inflação, 1,6 no crescimento e 2,5 nos juros. A média engana um pouco: na inflação, em 14 dos 25 anos o erro ficou dentro de 1 ponto; na Selic, só em 5. Em todos os três, alguns anos de choque puxam a média para cima.
Inflação: o mercado tende a ver menos do que vem
Em 16 dos 25 anos, a expectativa de dezembro para a inflação do ano seguinte ficou abaixo do resultado; em 9, acima. Em 14 anos, o erro ficou dentro de 1 ponto percentual. O erro mediano é de 0,91 ponto, bem menor que a média de 1,62, porque poucos anos puxam a média para cima.
Os maiores erros foram em 2001, 2002, 2015 e 2021. Em 2002, por exemplo, o mercado esperava 4,8% em dezembro do ano anterior, e o IPCA fechou em 12,5%, com o dólar subindo 52% no ano. Em 2021, a expectativa era 3,3% e o resultado, 10,1%; o dólar subiu 7%.
Inflação (IPCA): o que o mercado esperava em dezembro e o que aconteceu no ano seguinte
● resultado do ano○ expectativa menor que o resultado○ expectativa maior que o resultado
Fonte: Banco Central (Focus, mediana das expectativas), IBGE (IPCA, PIB) e Banco Central (meta Selic). Cálculo: Dado Bruto. IPCA acumulado de janeiro a dezembro (IBGE).
PIB: errar para os dois lados
No crescimento, não há uma direção clara. A expectativa de dezembro ficou abaixo do resultado em 12 anos e acima em 13. O viés médio é pequeno: 0,15 ponto. Mas os erros individuais são grandes: em 2020, o mercado esperava 2,3% e o PIB fechou em -3,3%. Em 2015, a diferença foi de 4,0 pontos (0,5% esperado, -3,5% de resultado).
Um cuidado: o PIB é revisado pelo IBGE por anos. A comparação aqui usa os números atuais, que podem diferir do que a imprensa noticiou na época da divulgação, e isso pode aumentar ou diminuir o erro de um ano específico.
PIB: o que o mercado esperava em dezembro e o que aconteceu no ano seguinte
● resultado do ano○ expectativa menor que o resultado○ expectativa maior que o resultado
Fonte: Banco Central (Focus, mediana das expectativas), IBGE (IPCA, PIB) e Banco Central (meta Selic). Cálculo: Dado Bruto. Crescimento do PIB: média dos quatro trimestres sobre a do ano anterior, com os dados atuais do IBGE, que revisa o passado.
Selic: o mais difícil de acertar com antecedência
Os juros foram o indicador em que o mercado mais errou em pontos: 2,51 em média na expectativa de dezembro, e só 5 dos 25 anos dentro de 1 ponto. O erro mediano (2,25) é bem menor que a média, de novo por causa de poucos anos. O maior foi 2002: o mercado esperava 17,00% em dezembro do ano anterior, e a Selic terminou o ano em 25,00%. Em 2021, a diferença foi de 6,25 pontos (3,00% esperado; 9,25% de resultado).
Selic: o que o mercado esperava em dezembro para o fim do ano seguinte, e onde ela terminou
● resultado do ano○ expectativa menor que o resultado○ expectativa maior que o resultado
Fonte: Banco Central (Focus, mediana das expectativas), IBGE (IPCA, PIB) e Banco Central (meta Selic). Cálculo: Dado Bruto. Selic meta em 31 de dezembro (Banco Central).
O erro encolhe rápido quando o ano passa
A expectativa para um ano que ainda nem começou, feita em janeiro do ano anterior, errou a inflação em 2,0 pontos, o PIB em 2,2 e a Selic em 3,6, em média. Em outubro do próprio ano, o erro cai para 0,75, 0,53 e 0,54. Boa parte do que muda entre uma data e outra é informação nova: o que ocorreu na economia e no mundo nos meses seguintes.
Quanto o erro cai à medida que o ano passa (erro médio, em pontos percentuais)
IPCA (inflação)PIB (crescimento)Selic (fim do ano)
Fonte: Banco Central (Focus, mediana das expectativas), IBGE (IPCA, PIB) e Banco Central (meta Selic). Cálculo: Dado Bruto. Erro absoluto médio de 2000 a 2025 (2001 a 2025 nas datas do ano anterior). Quanto menor, mais próxima do resultado.
Erro médio absoluto, em pontos percentuais, por data da expectativa
Indicador
Jan. do ano anterior
Dez. do ano anterior
Jan.
Jul.
Out.
Viés em dez.*
IPCA (inflação)
2,01
1,62
1,58
1,18
0,75
-0,98
PIB (crescimento)
2,16
1,61
1,55
0,86
0,53
0,15
Selic (fim do ano)
3,56
2,51
2,29
1,32
0,54
-0,66
* Viés: média de (expectativa − resultado); positivo = o mercado esperava mais do que aconteceu. Fonte: Banco Central (Focus, mediana das expectativas), IBGE (IPCA, PIB) e Banco Central (meta Selic). Cálculo: Dado Bruto.
O mercado ganha da conta mais simples?
Uma forma de medir se a previsão tem valor é compará-la com algo trivial: repetir o ano anterior. Na tabela abaixo, o Focus de dezembro errou menos que a repetição em 16 dos 25 anos para a inflação, 17 dos 25 para o PIB e 14 dos 25 para a Selic. A vantagem existe, mas é moderada, mais clara no PIB (erro médio de 1,61 contra 2,62 da repetição) do que na inflação (1,62 contra 1,96) e na Selic (2,51 contra 3,03).
A expectativa de dezembro contra a conta mais simples possível
Indicador
Erro médio do Focus (p.p.)
Erro de repetir o ano anterior (p.p.)
Anos em que o Focus errou menos
IPCA (inflação)
1,62
1,96
16 de 25
PIB (crescimento)
1,61
2,62
17 de 25
Selic (fim do ano)
2,51
3,03
14 de 25
Previsão ingênua: IPCA e PIB iguais aos do ano anterior; Selic igual à de 31 de dezembro do ano anterior. Anos de 2001 a 2025. Fonte: Banco Central (Focus, mediana das expectativas), IBGE (IPCA, PIB) e Banco Central (meta Selic). Cálculo: Dado Bruto.
E agora, em 2026?
No Focus de 9 de outubro, a mediana é de 5,22% para a inflação de 2026, 1,85% para o PIB e 13,25% para a Selic no fim do ano. Para 2027: 4,30% de inflação, 1,40% de crescimento e 12,00% de Selic. No início do ano, as medianas para 2026 eram 4,06%, 1,80% e 12,25%: a expectativa de inflação e de juros subiu, a de crescimento ficou quase estável. A Selic meta está em 13,75%.
Faltam três meses de IPCA. De janeiro a setembro, o índice acumulou 3,95%. Para fechar o ano em 5,22%, o trimestre de outubro a dezembro teria de ter 1,22% de inflação. Nos últimos dez anos, esse trimestre variou de 0,39% (2018) a 3,13% (2020), e foi de 0,60% em 2025. Não é uma projeção do Dado Bruto: é a conta que a expectativa do mercado implica.
Para a escala do erro possível: em outubro, o erro médio histórico das expectativas para o ano corrente é de 0,75 ponto na inflação, 0,53 no PIB e 0,54 na Selic. Para o ano seguinte, medido em dezembro, é de 1,6, 1,6 e 2,5. Quanto mais longe, maior o desvio possível.
Veja a expectativa mudar ao longo de dois anos
Escolha o indicador e o ano que o mercado tentava prever. A linha mostra a mediana das expectativas, semana a semana, de janeiro do ano anterior até dezembro; a linha tracejada é o resultado. Compare com outro ano, se quiser. Os anos de 2026 e 2027 ainda não têm resultado.
Limites
Este texto não avalia instituições individuais: o Focus aqui é a mediana de todas as respostas, e a mediana esconde quem acertou e quem errou. Também não explica por que cada ano errou. Os poucos números de contexto que aparecem (como a variação do dólar) mostram o que mudou no ano, não provam que foi a causa. A amostra tem 25 anos, e um ou dois anos extremos mudam muito a média, por isso o texto mostra também a mediana.
As expectativas são do dia útil mais próximo das datas indicadas. O resultado do IPCA e do PIB são os divulgados pelo IBGE hoje. Nenhuma das previsões acima é do Dado Bruto.
Fontes e método
Banco Central do Brasil, Sistema de Expectativas de Mercado (Focus), API Olinda, endpoint ExpectativasMercadoAnuais: mediana das expectativas para IPCA, PIB total e Selic (fim do ano), para o ano corrente e o seguinte, 1999 a 2026.
IBGE, SIDRA: tabela 1737 (IPCA, variação mensal; o resultado do ano é o acumulado de janeiro a dezembro, composto) e tabela 1620 (PIB, índice de volume trimestral; o crescimento do ano é a média dos quatro trimestres sobre a do ano anterior).
Banco Central, SGS: série 432 (meta Selic, 31 de dezembro de cada ano) e série 1 (dólar comercial, venda, usado só para a variação em dezembro a dezembro).
Cálculos do Dado Bruto: erro = expectativa − resultado; erro médio absoluto, mediana do erro absoluto e viés (média do erro) por data de expectativa; previsão ingênua = valor do ano anterior. Dados acessados em 17/10/2026.