A família brasileira deve metade da renda de um ano. O problema é o preço da prestação
A dívida com bancos chegou a 49,9% da renda anual, o maior nível desde pelo menos 2012. Mas o que aperta é o serviço da dívida: 28,2% da renda vai para juros e parcelas, mais que o dobro do que pesa nos Estados Unidos.
Por Dado Bruto · 12 out. 2026 · 6 min de leituraFontes e método
O Banco Central mede o aperto financeiro das famílias de duas formas. O endividamento compara o saldo de tudo o que as famílias devem aos bancos com a renda dos últimos 12 meses. O comprometimento de renda mostra quanto da renda mensal vai para pagar juros e amortizações. A primeira medida é o tamanho da dívida; a segunda, o peso dela no mês.
Em janeiro de 2012, as famílias deviam o equivalente a 36,8% da renda de um ano. Em janeiro de 2026, deviam 49,9%. O salto mais forte foi em 2021: de 41,8% para 49,5% em doze meses. O crédito cresceu mais rápido que a renda, e a saída do auxílio emergencial da conta de 12 meses ajuda a explicar parte do pulo.
Endividamento das famílias com o sistema financeiro, % da renda de 12 meses
Fonte: Banco Central, SGS 29037. Jan/2012 a mai/2026.
O peso no mês
A série de comprometimento de renda tem um padrão sazonal forte: sobe todo março e cai todo dezembro, quando entra o 13º salário. Para ver a tendência, usamos a média móvel de 12 meses.
Por essa medida, o peso das parcelas chegou ao ponto mais baixo em abril de 2021, com 21,2% da renda, no auge do juro baixo. Desde então, subiu quase sem parar. Em julho de 2026 estava em 28,2%, o maior nível desde pelo menos 2012. No mês isolado, o recorde foi março de 2026: 29,5%.
Comprometimento de renda com o serviço da dívida, %
Média móvel de 12 mesesMês a mês, sem ajuste sazonal
Fonte: Banco Central, SGS 29265 (sem ajuste sazonal). Média móvel de 12 meses: cálculo do Dado Bruto. Jan/2012 a jul/2026.
Deve pouco, paga muito
A comparação com os Estados Unidos mostra o tamanho da distorção. Lá, o Federal Reserve calcula que o serviço da dívida das famílias consome 11,1% da renda disponível, no segundo trimestre de 2026. Aqui, 28,2%, mais de duas vezes e meia.
A diferença está, em boa parte, no tipo de dívida. Nos EUA, a maior parte é hipoteca, com prazos de 15 a 30 anos. No Brasil, pesa muito o crédito curto e caro: cartão, crédito pessoal, consignado, veículos. Prazo curto e juro alto fazem a parcela pesar, mesmo quando o saldo não é grande.
Parcela da renda que vai para o serviço da dívida, %
Brasil jul/2026, média 12m
28,2
Estados Unidos 2º tri 2026
11,1
As metodologias não são idênticas: o BC considera dívidas com o sistema financeiro; o Fed, a renda pessoal disponível. Servem para comparar ordem de grandeza. Fontes: BCB/SGS 29265; Federal Reserve via FRED (TDSP).
Onde isso se encontra com o resto
Os dois movimentos do gráfico têm a mesma raiz. A Selic subiu de 1,90% para 13,65% entre 2021 e 2022, e de novo até 14,90% em 2025. Como a dívida das famílias é curta, a alta dos juros chega rápido à parcela. O caminho dos juros está nesta peça.
A renda também disputa espaço com outros gastos. Em 2025, os brasileiros perderam R$ 36,9 bilhões em apostas nas casas autorizadas, segundo a Secretaria de Prêmios e Apostas. Não dá para dizer quanto disso virou dívida. Mas é dinheiro que saiu do mesmo orçamento que paga as parcelas. Os números das bets estão aqui.
Fontes e método
Endividamento: BCB/SGS 29037, endividamento das famílias com o SFN em relação à renda acumulada dos últimos 12 meses.
Comprometimento: BCB/SGS 29265, comprometimento de renda com o serviço da dívida com o SFN, sem ajuste sazonal. Média móvel de 12 meses calculada pelo Dado Bruto.
As séries foram consultadas a partir de jan/2012; por isso falamos em "maior nível desde pelo menos 2012".
EUA: Federal Reserve, Household Debt Service Payments as a Percent of Disposable Personal Income, via FRED (série TDSP, 2º tri 2026).
Apostas: Secretaria de Prêmios e Apostas, dados de 2025.