O Pix virou o trilho do dinheiro brasileiro. E um assunto de política comercial
Em quatro anos, o sistema passou de 9,4 bilhões para 79,8 bilhões de transações por ano. Hoje responde por mais da metade dos pagamentos do país, carregou boa parte do dinheiro das bets e entrou na lista de queixas dos Estados Unidos.
Por Dado Bruto · 12 out. 2026 · 7 min de leituraFontes e método
O Pix entrou no ar em novembro de 2020. No primeiro ano cheio, 2021, foram 9,4 bilhões de transações, somando R$ 5,2 trilhões. Em 2025, foram 79,8 bilhões, somando R$ 35,4 trilhões. A quantidade de transações cresceu 8,5 vezes e o valor, 6,8 vezes.
Com 213,4 milhões de habitantes, isso dá cerca de 374 Pix por pessoa no ano, mais de um por dia para cada brasileiro, de recém-nascidos a idosos.
Transações Pix por ano, em bilhões
2021
9,4 · R$ 5,2 tri
2022
24,0 · R$ 10,9 tri
2023
42,0 · R$ 17,2 tri
2024
63,5 · R$ 26,2 tri
2025
79,8 · R$ 35,4 tri
Barras: quantidade de transações. À direita: quantidade e valor movimentado. Fonte: Banco Central (2021–2023 via relatório PCMI; 2024–2025 via Metrópoles).
Muito pagamento, pouco dinheiro por pagamento
No segundo semestre de 2025, o Pix respondeu por 54,7% de todas as transações de pagamento do país: 42,9 bilhões de um total de 78,4 bilhões. Os cartões, somados, ficaram com 30,4%.
Pelo valor, o retrato muda. O Pix ficou com 28,6% do dinheiro movimentado, atrás da TED, que respondeu por 34,7%. O Pix ganhou o varejo do dia a dia; as transferências grandes, entre empresas e instituições, continuam em outros trilhos.
Participação do Pix nos pagamentos, 2º semestre de 2025 (%)
Na quantidade
54,7
No valor
28,6
Fundo cinza = 100% dos pagamentos. Fonte: Banco Central, Estatísticas de Pagamentos de Varejo, via Diário do Nordeste (7/4/2026).
De transferência entre amigos a meio de pagamento
No começo, o Pix era usado sobretudo para mandar dinheiro de uma pessoa para outra. No primeiro trimestre de 2021, 79% das transações eram desse tipo, e só 10% eram pagamentos de pessoas a empresas. No primeiro trimestre de 2025, os dois tipos estavam quase empatados: 46% e 41%. Em 2025 inteiro, pagamentos de pessoas a empresas já eram 43% do total.
Pessoa para pessoa
79%→46%
1º tri 2021 → 1º tri 2025
Pessoa para empresa
10%→41%
1º tri 2021 → 1º tri 2025
Mais Pix por habitante que UPI na Índia
O sistema mais citado como par do Pix é o UPI indiano. Em números absolutos, a Índia está muito à frente: mais de 228 bilhões de transações em 2025. Mas a Índia tem 1,46 bilhão de habitantes. Por pessoa, o brasileiro usa o Pix mais de duas vezes mais do que o indiano usa o UPI.
Transações por habitante em 2025
Pix (Brasil)
374
UPI (Índia)
156
Cálculo do Dado Bruto. Pix: 79,8 bi transações ÷ 213,4 mi hab. (IBGE, jul/2025). UPI: 228 bi transações (NPCI, via Business Today) ÷ 1,46 bi hab. (ONU, 2025).
Do celular para a mesa de negociação
Um sistema público, gratuito para pessoas físicas e usado por quase todo mundo compete diretamente com as bandeiras de cartão. Foi esse o ponto levantado por Washington. Em julho de 2025, o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) abriu uma investigação sob a Seção 301 contra seis práticas brasileiras. Em 1º de junho de 2026, concluiu que o tratamento dado ao Pix "prejudica injustamente" prestadores americanos de pagamento eletrônico.
Em 15 de julho de 2026, veio a ação final: tarifa adicional de 25% sobre parte dos produtos brasileiros, em vigor desde 22 de julho, com uma longa lista de exceções. A tarifa responde ao conjunto das seis práticas investigadas, não só ao Pix. Mas é a primeira vez que um meio de pagamento criado por um banco central aparece numa disputa comercial desse porte.
O trilho das apostas
O Pix também foi o principal canal de depósito das casas de apostas. Uma estimativa do Comsefaz, comitê dos secretários estaduais de Fazenda, aponta R$ 351 bilhões em transferências Pix ligadas a bets em 2025. É cerca de 1% de todo o valor que passou pelo Pix no ano. Quando o governo decidiu fechar o setor, em setembro, o primeiro passo foi justamente barrar novos depósitos. Os números das bets estão nesta outra peça.
Fontes e método
Totais anuais do Pix: Banco Central. 2021–2023 conforme compilação da PCMI (mar/2025); 2024–2025 conforme Metrópoles (7/2/2026).
Participação por meio de pagamento: Banco Central, Estatísticas de Pagamentos de Varejo, 2º semestre de 2025.
Tipos de transação (P2P, P2B): Banco Central via PCMI; 2025 via Relatório de Gestão do Pix (Band, ago/2026).
UPI: NPCI, via Business Today (2/1/2026). Populações: IBGE (213,4 mi, jul/2025) e ONU (1,46 bi, 2025).
Seção 301: USTR, notificação de 1/6/2026 e ação final de 15/7/2026 (resumos de BDO e Wiley).
Pix e bets: estimativa Comsefaz/Centro Celso Furtado para 2025. Não é número oficial do Banco Central.