O mapa do voto ficou menos dividido por renda desde 2018
Cruzamos o 2º turno de 2018, 2022 e 2026 com o Censo 2022 nos 5.570 municípios. Entre o quinto mais pobre e o mais rico do eleitorado, a diferença na votação do PT caiu de 41 para 23 pontos. Bolsa Família, religião e cor ainda separam os municípios; renda e agro, cada vez menos.
Em 2018, nos municípios que somam o quinto mais pobre do eleitorado, Fernando Haddad teve 74,9% dos votos válidos do 2º turno; nos que somam o quinto mais rico, 34,1%. Eram 40,8 pontos de distância. Em 2022, Lula teve 72,7% e 45,6%: 27,1 pontos. Em 2026, 71,2% e 48,1%: 23,2 pontos.
A renda continua separando o voto, mas cada vez menos. E a curva virou um U: os municípios mais ricos do país, quase todos grandes cidades e capitais, deram a Lula mais votos do que os de renda média-alta. Esta análise cruza o resultado do 2º turno nos 5.570 municípios com dados do Censo 2022 (renda, escolaridade, religião, cor, idade, urbanização, trabalho) e com o Bolsa Família.
É uma comparação entre municípios, não entre eleitores. Que municípios mais evangélicos votaram menos em Lula não quer dizer que cada evangélico votou em Flávio Bolsonaro. Nenhum número aqui mostra causa.
Quanto mais pobre o município, mais voto no PT; a distância encolheu desde 2018
% do candidato do PT nos votos válidos do 2º turno, por quintil de renda do município
Fonte: TSE (2º turno de 2018, 2022 e 2026); IBGE, Censo 2022; MDS (Bolsa Família, dez/2025). Cálculos: Dado Bruto.
O perfil do voto em 2026
Separando os municípios em cinco grupos com o mesmo número de votos válidos, as maiores distâncias aparecem no Bolsa Família e na cor: Lula teve 36,5% onde há menos benefícios por domicílio e 71,0% onde há mais; 37,7% onde há menos pretos e pardos e 65,8% onde há mais. Nos municípios menos evangélicos, 62,7%; nos mais evangélicos, 45,2%.
Escolaridade e urbanização seguem o mesmo U da renda: a votação de Lula cai do primeiro ao terceiro ou quarto grupo e volta a subir no último, puxada pelas capitais. Por região, Lula teve 69,4% no Nordeste, 50,0% no Norte, 47,2% no Sudeste, 40,0% no Centro-Oeste e 37,4% no Sul.
O voto em Lula em 2026 por grupo de municípios
Cada gráfico divide os municípios em cinco grupos com 1/5 dos votos válidos cada, do menor (1) ao maior (5) valor da variável
Renda domiciliar per capita
Bolsa Família por 100 domicílios
% de evangélicos
% com superior completo (25+)
% de pretos e pardos
% da população urbana
Fonte: TSE (2º turno de 2018, 2022 e 2026); IBGE, Censo 2022; MDS (Bolsa Família, dez/2025). Cálculos: Dado Bruto. Barras: 2026. Traço escuro: 2022. Linha tracejada: 50%.
Tudo junto: o que sobra quando as variáveis andam juntas
Renda, escolaridade, Bolsa Família e região andam juntas: municípios mais pobres têm mais Bolsa Família, menos gente com diploma e ficam mais no Nordeste. Para separar um pouco o que cada uma diz, pusemos todas num mesmo modelo, comparando só municípios do mesmo estado (efeito fixo de UF) e pesando cada um pelos votos válidos.
Só o estado explica 66% das diferenças de votação entre os municípios; com as variáveis do Censo, 84%. No modelo completo, as associações mais fortes são % de pretos e pardos (+9,3 ponto por desvio-padrão), Bolsa Família (+6,6) e evangélicos (−4,4). Duas trocam de sinal: escolaridade, que sozinha aparece ligada a menos voto em Lula (−2,9), passa a +2,9 quando a renda entra no modelo; e o agro vai de +4,9 a −1,6.
Sozinha e com as outras: como muda a associação de cada variável com o voto em Lula
Regressão ponderada pelos votos válidos, com efeito fixo de UF; renda e PIB per capita em logaritmo. Círculo vazio: a variável sozinha. Círculo cheio: com todas as outras e a UF. Fonte: TSE (2º turno de 2018, 2022 e 2026); IBGE, Censo 2022; MDS (Bolsa Família, dez/2025). Cálculos: Dado Bruto.
2018, 2022, 2026: as diferenças diminuíram
Repetindo a conta para os três 2º turnos (com o Censo de 2022 nas três eleições), a associação da renda com o voto no PT caiu de −12,9 para −7,8 pontos por desvio-padrão; a do agro, de +11,1 para +4,9; a do Bolsa Família, de +19,6 para +13,4. A dos evangélicos mudou menos: de −9,2 para −7,2. Em 2018 o candidato do PT era Haddad; em 2022 e 2026, Lula. E o adversário em 2026 não foi o mesmo de 2018 e 2022.
A força de cada variável no voto do PT, eleição a eleição
Inclinação da regressão ponderada de cada variável sozinha (pontos de % do PT por desvio-padrão). Vermelho: associada a mais voto no PT; azul: a menos. Fonte: TSE (2º turno de 2018, 2022 e 2026); IBGE, Censo 2022; MDS (Bolsa Família, dez/2025). Cálculos: Dado Bruto.
De 2022 para 2026: onde a fatia de Lula subiu e onde caiu
A análise município por município já mostrou que a fatia de Lula caiu em relação a 2022 na maioria dos municípios e mesmo assim subiu no país, de 50,9% para 51,8%, porque o ganho veio das cidades grandes. O perfil acrescenta outra camada: a fatia caiu mais onde há mais gente ocupada no agro e subiu nos municípios mais urbanos.
Nos municípios do quinto com mais agro, a fatia de Lula mudou −2,1 ponto; nos do quinto com menos, +2,6. Por urbanização, −2,1 no quinto menos urbano e +2,9 no mais urbano. Com todas as variáveis e a UF no modelo, o agro continua sendo a associação mais forte com a queda (−0,93 ponto por desvio-padrão).
Onde há mais agro, a fatia de Lula caiu mais
Pontos de % Lula, 2026 menos 2022, somando os votos de cada grupo. Fonte: TSE (2º turno de 2018, 2022 e 2026); IBGE, Censo 2022; MDS (Bolsa Família, dez/2025). Cálculos: Dado Bruto.
Nos municípios mais urbanos, a fatia de Lula subiu
Pontos de % Lula, 2026 menos 2022, somando os votos de cada grupo. Fonte: TSE (2º turno de 2018, 2022 e 2026); IBGE, Censo 2022; MDS (Bolsa Família, dez/2025). Cálculos: Dado Bruto.
Onde a fatia de Lula subiu e caiu de 2022 para 2026
2º turno, pontos percentuais dos votos válidos, por município
Fonte: TSE, 2º turno de 2022 e 2026; malha municipal: IBGE. Cálculos: Dado Bruto.
Fora da curva
O modelo dá, para cada município, a votação de Lula que o perfil do Censo e o estado indicariam. A maior parte fica perto disso. Alguns grupos fogem: municípios do Amazonas, como os do Alto Solimões, deram a Lula muito mais do que o previsto; municípios do Pará ao longo da Transamazônica e da BR-163, e da Serra e do norte do Rio Grande do Sul, muito menos. Os números mostram onde está a diferença, não por que ela existe.
Onde Lula ficou acima ou abaixo do que o perfil do município indicaria
Diferença entre a votação real e a prevista pelo modelo, em pontos percentuais
Modelo logístico ponderado com as variáveis do Censo 2022, Bolsa Família e efeito fixo de UF. Fonte: TSE; IBGE; MDS. Cálculos: Dado Bruto.
Os 15 mais acima do previsto (municípios com 20 mil habitantes ou mais)
Município
Habitantes (2022)
Lula, %
Previsto, %
Diferença
São Gabriel da Cachoeira (AM)
51.795
80,0
42,8
+37,2
Santo Antônio do Içá (AM)
28.211
74,1
42,5
+31,6
São Paulo de Olivença (AM)
32.967
83,4
55,6
+27,8
Benjamin Constant (AM)
37.648
81,3
59,7
+21,6
Tabatinga (AM)
66.764
67,9
48,2
+19,7
Itaperuçu (PR)
31.217
55,8
36,2
+19,6
Oiapoque (AP)
27.482
63,8
44,9
+18,9
Barreirinha (AM)
31.051
90,9
72,3
+18,6
Ortigueira (PR)
24.192
52,9
34,7
+18,1
Tabuleiro do Norte (CE)
30.652
80,1
62,3
+17,9
Cataguases (MG)
66.261
62,0
44,3
+17,7
Capão do Leão (RS)
26.487
54,3
36,7
+17,7
Barcarena (PA)
126.650
65,1
47,6
+17,5
Macau (RN)
27.369
79,7
63,0
+16,7
Rio Grande (RS)
191.900
63,9
47,4
+16,5
Os 15 mais abaixo do previsto (20 mil habitantes ou mais)
Município
Habitantes (2022)
Lula, %
Previsto, %
Diferença
Uruará (PA)
43.558
21,7
47,9
−26,2
Pacajá (PA)
41.097
30,5
56,5
−26,1
Marco (CE)
25.799
57,7
81,4
−23,7
Rurópolis (PA)
35.769
29,0
52,2
−23,2
Anapu (PA)
31.850
29,0
52,0
−22,9
Novo Progresso (PA)
33.638
15,7
38,5
−22,8
Tapejara (RS)
24.557
22,0
44,5
−22,4
Morrinhos (CE)
22.753
52,4
74,4
−22,0
Nova Prata (RS)
25.692
21,6
43,1
−21,5
Medicilândia (PA)
27.094
27,1
48,4
−21,3
Pompéia (SP)
20.196
26,2
47,0
−20,8
Mojuí dos Campos (PA)
23.501
36,3
57,0
−20,7
Veranópolis (RS)
24.021
19,8
40,0
−20,2
Flores da Cunha (RS)
30.892
16,6
36,4
−19,8
Taiobeiras (MG)
33.050
41,6
61,0
−19,4
Previsto: votação de Lula que o modelo (perfil do Censo 2022, Bolsa Família e UF) indicaria. Diferença em pontos percentuais.
Robustez: o modelo completo em recortes diferentes
Recorte
Bolsa Família
Evangélicos
Superior
Renda
Agro
Todos os municípios
+6,6
−4,4
+2,9
−3,3
−1,6
Só acima de 20 mil habitantes
+8,0
−4,8
+2,8
−2,9
−2,2
Sem as capitais
+4,6
−3,6
+3,3
−7,3
−1,4
Sem ponderar pelo eleitorado
+3,9
−2,5
+2,0
−6,2
−1,0
Norte
+7,9
−2,5
+4,6
−13,4
−0,2
Nordeste
+3,0
−5,6
+1,0
−4,3
−0,6
Centro-Oeste
+7,8
−1,3
+3,0
−6,6
−1,8
Sudeste
+6,7
−4,9
+2,3
+0,2
−0,3
Sul
+15,0
−2,3
+2,5
−1,9
−2,8
Pontos de % Lula por desvio-padrão, com todas as variáveis e efeito fixo de UF. Bolsa Família (+), evangélicos (−) e superior (+) mantêm o sinal em todos os recortes; a renda muda bastante de uma região para outra.
Método e limites
Dados. Votos do 2º turno de 2018 (Haddad × Jair Bolsonaro), 2022 (Lula × Jair Bolsonaro) e 2026 (Lula × Flávio Bolsonaro), TSE, por município, sem o exterior. Perfil: Censo 2022 do IBGE (renda domiciliar per capita, instrução das pessoas de 25 anos ou mais, religião das pessoas de 10 anos ou mais, cor ou raça, idade, população urbana, trabalho informal e na agropecuária), PIB municipal de 2023 por habitante do Censo e benefícios do Bolsa Família de dezembro de 2025 por 100 domicílios (MDS, via Ipeadata). São 5.570 municípios; Boa Esperança do Norte (MT), criado depois do Censo, fica de fora.
Grupos. Os quintis dividem os municípios em cinco grupos com o mesmo número de votos válidos de 2026; a votação de cada grupo é a soma dos votos, não a média dos municípios.
Modelos. Regressão linear ponderada pelos votos válidos, com variáveis padronizadas, efeito fixo de UF e erros robustos; renda e PIB per capita em logaritmo. Fator de inflação da variância (VIF): renda 9,9, Bolsa Família 6,1, informais 5,0; as demais abaixo de 4. Com variáveis tão correlacionadas, o coeficiente de cada uma é instável e não deve ser lido como efeito. Para o previsto e o resíduo, usamos regressão no logito da fatia de Lula, que mantém as previsões entre 0% e 100%.
Limites. Comparação entre municípios, não entre pessoas (falácia ecológica). O Censo é de 2022; o voto, de 2026 (e de 2018). Candidatos diferentes em cada eleição. Nenhuma relação aqui é causal.
Pode reutilizar. Os gráficos e os dados desta análise podem ser copiados e republicados, até para fins comerciais, sob a licença CC BY 4.0. Basta citar “dadobruto.com” e, na internet, linkar para esta página ou para dadobruto.com. Os números originais seguem as regras de cada fonte citada. O texto da análise fica fora da licença.
Como citar:Dado Bruto. O mapa do voto ficou menos dividido por renda desde 2018. Código DB-AN-0014. Publicado em 28/10/2026. https://dadobruto.com/analises/eleicao-2026-perfil-dos-municipios
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